Terça-feira , 12 Dezembro 2017
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Brincadeira de rua

Foto: Otávio Bueno

Amarelinha, andar de bicicleta, balança caixão, bete, carrinho de rolimã, esconde-esconde, mamãe da rua, passa anel, patins, queimada, skate, soltar pipa e até guerra de tomates. Que louco! Do que se trata esse monte substantivos?

Trata-se de brincadeiras de rua que as crianças de ontem curtiam e, que, no decorrer do tempo foram se perdendo na conjuntura da história atual.

Bairro

“Vinha gente de outras ruas para andar de skate e carrinho de rolimã. Andar de bicicleta era um evento, pois arrumávamos os cabelos com tranças e colocávamos chapéu. Era muito divertido”, relembra Leoneth Aparecida Fusco Darcadia dos Reis, 54.

Na infância, Leoneth Darcádia morava na rua São Paulo, jardim Bela Vista, e adorava brincar nessa via pública.

“Nessa rua, tinham muitas crianças e é isso que fazia que a brincadeira fosse maravilhosa. Na verdade gostava de brincar na rua, não importava qual era a brincadeira. Mas se os amigos estivessem juntos era pura felicidade”.

Ela diz que hoje em dia é muito raro ver crianças brincando na rua. “Em bairros mais afastados ou com menos movimento, ainda há crianças brincando e quando vejo, fico muito feliz, porque é muito importante se divertir com os amigos em brincadeiras lúdicas”.

Para ela, em lugares que não têm crianças brincando nas ruas nos dias atuais é consequência do grande fluxo de trânsito e o medo dos pais de acontecer alguma coisa como assaltos ou drogas.

“Quando brincava na rua, não tinha trânsito, não havia violência e o medo não existia no nosso dicionário. É muito diferente o mundo de ontem com o de hoje, não dá para comparar”.

De acordo com Leoneth Darcádia, para as crianças de hoje, as brincadeiras às vezes são as mesmas, mas dentro de condomínios ou em prédios.

“Com o vídeo, games e muita TV, as crianças deste tempo não se comportam mais como crianças porque querem estar sempre vestidas ou imitando artistas de TV. Vão ser adultos felizes também, porque não tem jeito de saber como era antigamente”.

Área Central

“Quando criança, eu morava em uma rua tranquila, não tinha muito movimento de carros e em quase todas as casas vizinhas havia crianças. Nós éramos muitos e brincávamos de todas as brincadeiras infantis”, conta Anelisa Marquezi de Gusman Gomes, 44.

Anelisa menciona que é muito raro ver crianças brincando na rua hoje em dia e, que, o medo, tanto de assalto como da violência e também dos acidentes de trânsito contribuíram para que as brincadeiras de rua se perdessem do nosso meio.

“Muita coisa mudou, a cidade cresceu, o que não foi ruim. Mas, neste aspecto acabou tendo uma influência negativa, pois o crescimento acaba automaticamente trazendo aumento da criminalidade, do movimento de veículos, da violência”.

Outro fator citado por ela é que as crianças e pais de hoje tem muitas atividades sobrando e pouco tempo para esse tipo de comportamento. Com isso as pessoas foram perdendo o hábito de se relacionarem com os vizinhos e de os filhos brincarem nas ruas.

“Cada um vive a realidade do seu tempo. Nós vivemos aquela. As crianças atuais vivem outra realidade, na qual precisam da tecnologia, precisam dominá-la, precisam saber usar um celular, um computador e, desde pequenas, para no futuro não se tornarem um adulto fora do contexto”.

Para o amanhã, Anelisa diz que o ideal seria se tivéssemos um meio termo, mas que infelizmente, aí entra a questão da violência e o mundo está se fechando cada vez mais e indo cada um para o seu ‘mundo particular’.

“Tudo na vida tem um lado bom e um ruim. Nós é que precisamos saber aproveitar sempre o que tem de bom neles”, finaliza.

Irmãzinha

Quem também brincou bastante na rua Nestor Armani foi a dentista Ana Claudia Marquezi de Gusman Oliveira, 41, irmã de Anelisa Gusman.

“Brinquei de pega-pega, esconde-esconde, queimada e andei muito de bicicleta. Mas, o que eu mais gostava era de andar de patins, porque era uma emoção incrível”.

Ana Cláudia diz que se sente muito triste porque não vê mais crianças brincando na rua.

“É lamentável as crianças não poderem brincar com os amigos nas ruas, pois eram brincadeiras gostosas e criativas, onde a criança gastava energia, se exercitava e ainda tinha muito contato com vários amigos”.

A dentista que é mãe de Henrique, 2, analisa e vê toda essa história pelo filho” O Henrique é filho único e fica muito sozinho em casa. Por esse motivo, ele adora ir para a escola, pois lá ele tem contato com outras crianças”.

Em sua opinião, o que ocorreu da época em que brincava na rua para os dias atuais é o mundo estar violento demais.  “Infelizmente, não temos mais tranquilidade para deixar as crianças brincando na rua. A cada dia que passa, o medo aumenta e as nossas crianças vão ficando cada vez mais ‘prisioneiras’, não podendo conviver com outras crianças e, assim, vão se fechando no mundo dos vídeos, games e tablets. Neste mundo virtual”.

Sobre Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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Um comentário

  1. Ótimo texto Flavio!!!
    Traz inumeras reflexões!!

    Tenho duas percepções adicionais. Uma é a questão de haver cada vez mais filhos únícos … outro é que em geral, nos anos 70 e 80 certos bairros e ruas tinham em suas imediações inúmeras jovens familias, as quais tinham crianças em seu seio.

    Por exemplo: quantas crianças de 3 a 13 anos moram na sua rua ou seu condominio?

    Certamente, encontraremos esse comportamento das crianças nos bairros que recebem as familias recem formadas de hoje ou ainda que tenha maior densidade de crianças em sua area.

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