Quarta-feira , 18 Outubro 2017
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Como pais devem lidar com os 50 desafios macabros do jogo Baleia Azul

Um dos assuntos que mais tem gerado preocupação no Brasil e no mundo no momento é o jogo virtual da Baleia Azul. O passatempo, disputado pelas redes sociais, propõe ao jogador 50 desafios macabros que vão desde a automutilação até o suicídio.

O game funciona como uma espécie de ‘siga o mestre’, pois quem dita às regras e propõe os desafios é um mentor, o qual envia aos participantes mensagens com instruções do que fazer e solicita fotos como prova do cumprimento das tarefas. Os jogadores geralmente são crianças e adolescentes, que além de estarem mais susceptíveis a influências de terceiros, passam mais tempo em redes sociais.

Tudo começa de maneira ‘leve’. Inicialmente, são delegadas tarefas como assistir a filmes de terror, ouvir músicas psicodélicas e desenhar uma baleia azul em um papel. Com o passar dos dias, os adolescentes chegam a ser desafiados a se pendurarem em lugares altos e se automutilarem e até tirarem a própria vida.

Para prevenir pais e responsáveis por crianças e adolescentes e orientar a sociedade em geral, O Pólo produziu uma reportagem especial sobre o assunto e entrevistou na manhã de terça-feira, 25 de abril, a psicóloga Adriana Pereira Rosa Silva, especialista nas áreas de Psicologia Clínica e Terapia Infantil e Familiar.

Entrevista

Como os pais devem agir para ter controle sobre os filhos [crianças e adolescentes] para evitar que os mesmos ‘caiam’ de cabeça neste jogo?

Primeiramente, considero importante destacar que pais, familiares e profissionais que se relacionam com adolescentes, possam compreender um pouco mais sobre essa fase e o contexto que atualmente estamos inseridos.

Os adultos precisam compreender que a busca feita pelos adolescentes por uma nova identidade, é um caminho cheio de desvios, oscilações, incertezas e muitas de suas ações estarão diretamente relacionadas às experiências anteriores em seus diferentes relacionamentos. Pais e familiares devem estar por perto para conversar, conhecer, debater diferentes pontos de vista, refletir sobre as consequências e acolher dúvidas e angústias.

É necessário, garantir a segurança dos filhos. E uma forma possível, é manter a postura de curioso, interessado no que estão vendo ou fazendo. É também importante que saibam as senhas dos celulares, tablets e computadores, algo que não deve ser negociado, afinal, somos responsáveis por eles e precisamos cuidar, pelo menos até aos 18 anos, não é?

Como crianças e adolescentes podem evitar para não entrar no jogo?

É preciso que saibam sobre o conteúdo do jogo, seus objetivos e as reais consequências. As dúvidas devem ser esclarecidas e discutidas com os adultos. Isso em qualquer outra situação. Antigamente ouvíamos muito de nossos pais, orientações do tipo: “Não fale com estranhos” ou “Não aceitem convites ou presentes de desconhecidos”.

Essa mesma postura deve acontecer em relação aos meios tecnológicos. É preciso ensinar as nossas crianças e adolescentes os riscos que correm, seja no mundo real ou virtual. Ainda há uma ‘falsa’ ideia de que se estão em casa jogando, estão seguros. Infelizmente, não é verdade. Afinal, as pessoas de caráter duvidoso são as mesmas on ou offline.

Pelas regras, crianças e adolescentes mais susceptíveis a depressão são as principais vítimas e são especialmente atraídos por jogos como o da Baleia Azul. Qual a sua opinião?

Crianças, adolescentes e adultos que apresentam um quadro psicopatológico/psiquiátrico, estão mais susceptíveis a situações como essa, assim como em outras situações de risco também. Mas não acredito que seja somente essa demanda.

Compartilho da ideia de Birmam, um autor que faz algumas reflexões sobre a adolescência contemporânea, na qual ele afirma que a adolescência e a infância têm sido marcadas decisivamente pela presença da solidão afetiva. Estão entregues uns à companhia de cuidadores pagos, ao lado de videogames e computadores de última geração, enquanto outros ficam junto à televisão, por longas horas, completamente sozinhos em seus lares. Não são poucos os adolescentes e crianças privados de investimento afetivo e também da própria experiência de construção de alteridade.

Nesse contexto, nem sempre são os pais ou responsáveis os modelos identificatórios de seus filhos, ou melhor, as pessoas que servirão de eixo valorativo para a construção de seus estilos de vida. Por isso, é preciso compreender que não podemos culpabilizar apenas os meios e recursos tecnológicos por isto.

O bulling é a causa de muitos jovens cometerem o suicídio. Como os pais podem detectar se os filhos estão vivenciando isso?

Estarem um pouco mais perto, atentos, curiosos, observando a rotina, comportamentos e dispostos a conversarem sobre determinadas ações/reações, sem pré-julgamentos. Lembro-me de uma adolescente que relatou que se os pais soubessem o que ela estava passando na escola e em seus grupos sociais, compreenderiam as reações de agressividade manifestadas em casa. Afinal, somente lá sentia liberdade para expor seus verdadeiros sentimentos. É preciso se aproximar e perguntar, antes de tomar atitudes que impeçam o diálogo e comunicar-se com as comunidades que estão inseridas.

Como os pais devem agir para ajudar os filhos a enfrentarem a depressão e o bulling?

Novamente através da observação, do acolhimento, da compreensão, da confiança e da prática do diálogo na família. Algo que deve ser praticado desde pequeno. Muitas famílias cobram posturas dos adolescentes que não foram construídas anteriormente. 

Outro aspecto indispensável é a busca de profissionais da Psicologia para que possam auxiliar a família a encontrar os melhores caminhos na busca de atitudes que favoreçam a resolução do problema. Se necessário, no caso da depressão, a avaliação psiquiátrica, assim como a medicação, também é indispensável.

O suicídio já mata mais que homicídios, desastres e HIV em todo mundo segundo a OMS [Organização Mundial da Saúde]. Isso quer dizer que o ‘seu assassino mais provável é você mesmo’. Qual sua opinião?

É infelizmente, a estatística em relação ao aumento do suicídio é preocupante. Porém, não gosto muito dessa expressão ‘o seu assassino mais provável é você mesmo’.

Acredito no poder das relações no desenvolvimento da identidade, da autoestima e do autoconceito. A adolescência depende das experiências e das relações que estabelecem em seus diferentes ambientes, seja ele virtual ou não. Compreendo que muitas crianças, adolescentes e até mesmo os adultos, buscam suprir suas necessidades relacionais na internet, precisamos pensar sobre isso.

Questões como essa e outras emergentes no contexto atual em que estamos inseridos, devem ser vistas com cuidado e atenção pelas pessoas que compõem as diferentes redes das quais nossos jovens fazem parte. Mas, considero importante destacar, que quando se trata de adolescentes, as mudanças e os problemas pertinentes a essa fase podem ser superados e uma transição mais ‘saudável’ de fase pode ocorrer, isso quando identificamos e reconhecemos os recursos internos e as redes de apoio que os adolescentes e seus familiares possuem para lidar com os conflitos, assim conseguiremos  fortalecer conexões e vínculos saudáveis.        

A nossa geração ainda se importa pouco com doenças psíquicas, ainda trata como loucos os psicoatípicos, comove-se com uma série bem feita, mas é incapaz de se comover perante o sofrimento dos outros. Por quê?

Isso tem sido modificado. Hoje, as pessoas têm uma aceitação melhor da necessidade da saúde mental. Buscar a psicoterapia ou acompanhamento psiquiátrico, já não é mais um tabu, como era. Hoje, buscam ajuda porque querem se superar em suas dificuldades. Penso que apenas uma parte da população ainda tenha essa visão reducionista em relação a doenças psíquicas. A falta de informação é que gera preconceitos.

Acredito no ser humano, temos muito mais pessoas solidárias, colaborativas e empáticas, porém são movimentos pequenos, muitas vezes despercebidos perante as lentes da mídia. Precisamos direcionar nossos olhares e despertar a curiosidade de nossas crianças e adolescentes para as boas ações de nosso cotidiano e ressaltar valores importantes como a bondade, honestidade, gratidão, compaixão, que muitas vezes, na correria do dia a dia ou inseridos num ambiente consumista e individualista ficam despercebidos. 

Na geração dos egos inflados, não sobra espaço para mais nada. Segundo especialistas, não é o desafio da Baleia Azul que está matando os nossos adolescentes, mas sim, a nossa insensibilidade. Por quê?

Prefiro ao invés de me referir à palavra insensibilidade, usar a palavra autoridade ou talvez responsabilidade. As mudanças ocorridas devido à globalização trouxeram novas formas de sociabilidade na família pós-moderna e também entre os adolescentes e seus pares.

Hoje, a tecnologia passou a fazer parte de todas as áreas da vida, seja ela familiar, conjugal ou profissional. Mas, mesmo com toda essa modernização, o desenvolvimento do indivíduo necessita da presença do outro, que não seja a máquina.

A importância das funções paterna e materna é um tema amplamente apontado na literatura psicológica, independente da abordagem que seguirmos. É uma função de importância nuclear na formação do psiquismo humano. Sabemos que, na ausência do pai e mãe, algum adulto deve assumir essa função, oferecendo um ambiente necessário para que crianças e adolescentes possam se desenvolver fisicamente, socialmente e emocionalmente, e, assim, constituírem recursos internos próprios para sobrevivência. Atribuir limites e transmitir valores sempre foram e serão tarefas parentais ou dos cuidadores de crianças e adolescentes.

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Considerações finais.

Pesquisas comprovam a existência de fatores, assim como o jogo da Baleia Azul, que não podem ser negligenciados e, que, ao tomarem conhecimento, pais e profissionais devem buscar formas colaborativas de atuação. Nossos jovens, como já mencionado, precisam de cuidado, de segurança e da garantia que são amados, mesmo quando suas ações ou palavras nos mostrem o contrário.

Precisamos acreditar em movimentos, em ações e atitudes que contribuam de forma valiosa para que se possa ressaltar, na adolescência, as potencialidades e qualidades presentes nessa fase. É preciso compreender que adolescente, família e outros sistemas possam juntos construir uma história comum que viabilize o percurso e o desenvolvimento de todos os envolvidos

Não podemos deixar jogos como ‘BALEIA AZUL’, ‘VERMELHA’, ‘AMARELA’ sequestrarem nossas crianças e adolescentes. Vamos nos unir e continuarmos acreditando em nosso poder enquanto pais, profissionais e comunidade.

Amar, compreender e cuidar … é o caminho!

Sobre Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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