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Coronavírus: O que será do mercado imobiliário brasileiro após os impactos da pandemia? 

Não são só as pessoas que correm risco iminente de vida, de modo que as atividades empresariais já estão sendo afetadas em todo o país

Nesta em particular, destacam-se as incorporadoras, construtoras brasileiras e imobiliárias, que já vinham lutando para sobreviver ao mercado imobiliário em recessão, enfrentando neste momento um cenário mercadológico ainda pior.

Do ponto de vista legal para o mercado imobiliário e da construção civil, os impactos causados pelo novo coronavírus poderão trazer atrasos em obras, fechamento de shopping centers, prédios públicos, desequilíbrio econômico-financeiro em contratos em função do impacto causado pelo desaquecimento da economia.

A advogada e corretora de imóvel Fernanda Marques Lima Vendramini, 41, proprietária da Artigiani Consultoria de Imóveis comenta sobre os desdobramentos da pandemia em relação ao setor imobiliário.

Fernanda é pós-graduada em Gestão Empresarial pela FGV [Fundação Getúlio Vargas] e Especialista em Contratos pela PUC-SP e, também, em Direito Processual Civil pela Faculdade de Direito Damásio de Jesus.

O governador de São Paulo, João Dória [PSDB], prorrogou o prazo de isolamento social até 22 de abril. Dentro deste contexto, a Artigiani está em funcionamento?
Sim, a Artigiani nunca parou totalmente. Estamos funcionamento internamente, sem atendimento ao cliente de forma presencial, apenas telefone, e-mail, aplicativo, WhatsApp, para atendimento aos clientes.
Há alguns meses, claro que sem saber que a pandemia viria, estávamos implantando algumas tecnologias que hoje estão nos ajudando: aplicativo para acesso de locadores e locatários; assinatura eletrônica de contratos de locação; tour virtual 360º, de maneira que os interessados em alugar e/ou comprar, podem visualizar o imóvel por meio de um tour em nosso site.

O serviço prestado pela Artigiani é imprescindível?
Entendemos que parte de nossos serviços é essencial. Isto porque fazemos o recebimento de aluguéis e repasses aos locadores. Muitos proprietários possuem o aluguel como única ou a mais importante de suas rendas mensais, motivo pelo qual mantivemos nossa prestação de serviço administrativa.
Além disto, temos também a administração de condomínios que possuem suas contas mensais normalmente para serem pagas, em pleno funcionamento, e não tem como simplesmente parar.

Que medidas a diretoria da Artigiani tomou para evitar o contágio, como por exemplo, de seus colaboradores, clientes e parceiros?
Nos banheiros internos para uso de colaboradores, trocamos as toalhas de tecido por toalhas de papel, descartáveis, disponibilizamos álcool em gel em todo o prédio e em diversos locais e orientamos para que lavem sempre as mãos.
Com relação aos clientes e parceiros, não estamos atendendo pessoalmente, somente por redes sociais, e-mails, telefone, aplicativo e WhatsApp.

Foi adotada na empresa a medida de redução de carga horária e/ou de trabalhar com 25% dos colaboradores?
Sim. Desde a primeira semana fizemos mudanças. Os corretores de locação e vendas estão trabalhando em home office e todos os dias temos um corretor de cada setor disponível na empresa para que possam atender ligações de clientes interessados em alugar e comprar.
Os setores administrativos foram divididos em dois grupos, de maneira que estes grupos trabalham alternadamente, um dia sim e outro não, em sistema de banco de horas. Desta forma, não reduzimos salário de ninguém, por não termos reduzido a jornada.

Foto: Otávio Bueno

“Tenho esperança que todos nós sairemos desta crise de uma forma melhor, mais humana, solidária, dando valor a pequenos momentos, à família, aos encontros, abraços e ajudas”

 

A crise deflagrada com a pandemia da Covid-19 vem atingindo vários segmentos da economia e com o mercado de aluguéis imobiliários não é diferente. Essa crise sanitária atingiu os negócios da Artigiani?
Claro. Atingiu o mercado imobiliário como um todo, isto é um fato. É certo que as pessoas não estão com foco em alugar imóveis, especialmente os comerciais. Quem neste momento vai querer montar um negócio?
Morar todos precisam, então, a locação residencial ainda tem uma procura, não como estava antes da pandemia, mas ela continua existindo.

Imobiliárias por todo o Brasil negociam aluguéis durante a crise do coronavírus. As empresas têm procurado a Artigiani para este tipo de negociação?
Sim. Antes de iniciar a quarentena já nos precavemos que isto poderia acontecer, então, dias antes já estávamos tomando diversas decisões na empresa para administrar esta situação que ocorreria. É fato que a Artigiani é administradora, intermediária de uma relação entre locador e locatário, de maneira que recebemos as solicitações dos locatários e conversamos com os locadores para encontrar um meio termo para todos.

E com as pessoas físicas e comerciantes, como tem sido?
Também. Todos nos procuram para negociar os aluguéis e estamos negociando um a um. Nosso departamento de negociação de locações em andamento é composto de três colaboradoras e acabamos por deslocar colaboradoras de outros setores para que pudessem ajudar nesta força tarefa. Estamos com seis colaboradoras apenas negociando estes aluguéis em andamento.

Os impactos mundiais da Covid-19 no mercado imobiliário foram percebidos mais em Portugal e China, em que houve uma queda de 34,7% na venda de imóveis e as pesquisas indicam que no Brasil os prejuízos podem ser ainda maiores. Qual a sua opinião sobre este assunto?
Será natural a queda na venda de imóveis, tendo em vista que o foco passa, de fato, a ser outro para todas as pessoas. Mas, é certo também que em momentos de crise, teremos pessoas com dinheiro para comprar imóveis e outras com imóveis precisando ser vendidos.
Assim, é a oferta e a procura, é a lei de mercado, onde um tem o dinheiro e o outro a necessidade de disponibilizar do bem, muitas vezes a um valor mais acessível. Nestes dias de pandemia já fizemos vários negócios com a venda de imóveis.

Problemas com atraso em entregas de obra e obtenção de licenças para projetos imobiliários, que já eram questões enfrentadas pela maioria das incorporadoras brasileiras, agora tendem a se intensificar?Atraso em entregas de obras é provável que não ocorra, na medida em que a construção civil está autorizada pelos órgãos competentes a trabalhar, adotando-se as medidas sanitárias necessárias. Desta forma, todos os empreendimentos que foram vendidos pela Artigiani continuam com suas obras em andamento normal e cumprindo seus prazos para entrega.
Com relação a novos projetos de lançamentos de imóveis, estes dependem dos órgãos públicos municipais e estaduais, eventualmente federais, dos bancos financiadores das obras e continuam em andamento.

Segundo especialistas, por mais que toda a preocupação com a saúde seja legítima e necessária neste momento, alerta-se para um cenário de grave crise econômico-financeira às incorporadoras, construtoras e imobiliárias. Assim, as mesmas deverão se utilizar de todos os meios jurídicos possíveis para mitigar seus prejuízos?
Somos contra quaisquer decisões radicais em um primeiro momento. Vale muito o bom senso e a compreensão de todos os lados, especialmente num momento como este, onde a pandemia assola o mundo todo e coloca em xeque a humanidade, a solidariedade e a resiliência do ser humano.
Por exemplo, a decisão da Artigiani num primeiro momento foi colocar parte dos colaboradores em home office e parte em banco de horas, para não reduzir salário de ninguém e assegurar empregos a todos.
Os colaboradores que estavam com férias vencidas, também estão de férias, mas retornarão normalmente às suas funções assim que gozarem das mesmas. Não pensamos em férias coletivas, porque a empresa precisa continuar em funcionamento, especialmente nesta questão de receber aluguéis, negociar eventuais atrasos e parcelamentos e repassar aos locadores.
Demissões? Nossa intenção é manter o emprego de todos. Pode acontecer? Pode, mas não é a primeira atitude, é a última. Quando chegarmos neste ponto será para preservar a empresa, o capital de giro, e emprego de outros, para que não fechemos em momento algum.

Que mensagem gostaria de transmitir a nossa sociedade neste momento?
É momento de entendermos que não está fácil para ninguém. Costumam dizer que estamos todos no mesmo barco. Na verdade, são vários barcos, com responsabilidades e receios que cabem a cada um.Os empresários e comerciantes receosos de fecharem suas portas, não terem como sustentar suas empresas e a demora em recuperar muito trabalho e dinheiro investidos em seus negócios. Funcionários também receosos de perderem seus empregos, ansiosos por não saberem o que fazer.
Locadores que não sabem se os locatários vão pagar seus aluguéis e muitos dependem dessa renda para suas vidas. Locatários preocupados em não conseguir pagar seus aluguéis, acumulando dívidas, sem saber se vão conseguir honrar futuramente estes pagamentos.
Ou seja, está doendo para todos! E entender a dor de cada um é o primeiro caminho para que possamos sair melhores desta crise, com muito diálogo e compreensão.

Artigiani Consultoria de Imóveis
Rua Siqueira Campos, 235, Centro, Mogi Guaçu – SP
(19) 3361.9999

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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