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Covid-19: “O pior vírus dessa doença é o do preconceito”, relata casal

Mogi Guaçu tem 24 pessoas recuperadas da doença, enquanto no país inteiro, a Covid-19 já matou 5.466 pessoas

Nos últimos meses, as pessoas vêm acompanhando com muita apreensão o aumento do número de casos e de mortes em decorrência da Covid-19. O Brasil totaliza até o momento 78.162 infectados e 5.466 óbitos. Pelo mundo já são mais de 3,17 milhões de pessoas contagiadas e 225 mil falecimentos.

Mas no meio dessa pandemia e de muita confusão, boas notícias seguem surgindo. Em Mogi Guaçu, os casos de cura da doença que tanto tem assustado a todos pelo mundo inteiro têm de 30 confirmados, um total de 24 pessoas curadas.

Dentre os curados, está o casal Elzio Romualdo, 33, e Ana Amália Moreira, 38, que contraiu a doença ao mesmo tempo. Os dois trabalham diretamente com o público. Elzio é agente de Segurança Pública e há oito anos atua na Corporação da Guarda Municipal de Mogi Guaçu. Também é proprietário do Grupo Romu Segurança Privada.

Ana Amália é fisioterapeuta e pós-graduada em Fisioterapia Cardiorrespiratória e funcionária do Hospital Municipal de Mogi Guaçu ‘Dr. Tabajara Ramos’. “Há 16 anos trabalho em UTI’s [Unidade de Terapia Intensiva]”, conta ela.

Em questão de dias, os dois foram diagnosticados com o novo coronavírus e precisaram ficar em quarentena domiciliar por 14 dias, entre 02 e 17 de abril, e passaram as duas semanas mais difíceis de suas vidas.

Mas o que antes era angústia e medo do que poderia acontecer, aos poucos foi tornando-se em esperança e o quadro clínico do casal evoluiu para a cura.

Juntos, contaram para O Polo que o mais difícil de vencer a Covid-19, é enfrentar a curiosidade, a indiferença, o descaso, a falta de conhecimento e, principalmente, o preconceito das pessoas. Mas também relataram emocionados como o apoio e carinho de um com o outro foi fundamental nesse processo e tudo alicerçado com muito amor.

A curiosidade
E, Ana Amália diz que…

Poucas pessoas realmente preocuparam-se de verdade, demonstraram um pouco de carinho, ofereciam-se para ir ao mercado e farmácia e ajudar em qualquer outra coisa que precisássemos. Por outro lado, algumas revelaram-se curiosas e não atenciosas. Eu recebi muitas ligações e mensagens.

Ana Amália Moreira é profissional da área de saúde e trabalha na linha de frente de combate ao novo coronavírus / Foto: Arquivo Pessoal

“E as primeiras perguntas eram: Quais são os sintomas?
É verdade? Fiquei sabendo? 
Dá falta de ar?
E a principal delas: Vai morrer?”

Enfim, eu acreditava que podia ser qualquer doença, menos a Covid-19…
Porque os sintomas da doença enganam e eu tinha acabado de ter dengue no mês de março e fiquei sete dias afastada do trabalho. Quando voltei, foi bem na época que começou a história de que a Covid-19 iria vir para Mogi Guaçu e que teríamos que reformular todo o hospital e mudar a rotina de atendimento. Trabalhei duas semanas incansavelmente. Estava muito cansada. E uma semana antes, eu tinha tomado a vacina contra a gripe que todos os anos os profissionais da área de saúde têm de receber obrigatoriamente. Todo ano, essa vacina dá uma reação que são dos sintomas da gripe normal.
Na quinta-feira, 02 de abril, acordei com nariz o congestionado, ardência nos olhos, estranha fisicamente e com um cansaço além do normal.

“Nem me passou pela cabeça que podia ser Covid-19
porque eu imaginava os sintomas dessa doença muito mais fortes”

No dia seguinte, acordei com o corpo ruim e pensei que podia ser dengue novamente. Mais à noite, senti nas regiões da face uma queimação, ardência nos sinos nasais e percebi que não estava sentindo muito o gosto dos alimentos.
No sábado, 04 de abril, o Elzio acordou com os mesmos sintomas que eu tive dois dias antes e foi quando me deu uma luz de que ele não tinha tomado a vacina contra a gripe e sentia o mesmo. Fomos para o médico e na hora já nos deram atestado de confinamento social porque era suspeita de Covid-19. Coletei o exame e dias depois veio a confirmação.
O que mais me marcou nessa doença foi uma sudorese importantíssima que eu transpirava de molhar o lençol, as  roupas de cama e a perda total do olfato e paladar. Não sentia o cheiro e gosto de absolutamente nada.
Durante esse período foram muitas dores nas costas, no corpo, de cabeça e um cansaço gigantesco por fazer qualquer coisa corriqueira como cozinhar ou subir as escadas da minha casa. Não tive falta de ar, mas sim, um aperto enorme no peito.
Covid-19 é Covid-19 e não sabemos o que essa doença pode causar futuramente, que sequelas pode deixar.

“Gripe é gripe e gripezinha é gripezinha”
E, Covid-19 é Covid-19 e é uma doença séria, grave, que com a graça de Deus,
nós dois vencemos e passamos por isso da melhor maneira possível”

9 de Abril…
Foi o pior dia para nós dois fisicamente e para mim de maneira especial porque é a data do meu aniversário e pela primeira vez passei longe das pessoas que mais amo: meu filho, meus pais, avós e irmãos. Passei meu aniversário só com o meu noivo aqui em casa.
Para ter-se uma ideia estou sem ver o meu filho desde 29 de março.

A sombra do medo…
Te assusta e incomoda o tempo todo. Vida e morte são separados por um fio, por um detalhe. Nós fazemos planos para o ano inteiro sempre e, de repente, você vê que tudo foi por água abaixo. Vou fazer isso! Vou fazer aquilo! E num piscar de olhos tudo muda e pode acabar.

“Tive receios, mas tinha no coração uma única certeza:
minha fé em Deus vai ajudar e Ele assim o fez”

Tem vida após o vírus
Elzio Romualdo relata que…

Se você depara com pessoas leigas, que te discriminam, apontam, falam que você teve Covid-19, pedem para os outros tomarem cuidado com a sua presença e querendo ou não dão um passo para traz quando te veem, te digo que não. Essas atitudes não são legais e te deixam para baixo.
Por outro lado, fico feliz em já poder rever meus parentes e pessoas que amo muito, que são pessoas esclarecidas, com conhecimento e isso faz toda a diferença.

Elzio Romualdo menciona que atitudes preconceituosas não são legais e te deixam para baixo / Foto: Arquivo Pessoal

Pessoas assim, com calor humano, com amizade e isso é muito bom.
Receber carinho sincero de quem nos ama de verdade”

Ressalto sobre os leigos, que os comentários maldosos geram o preconceito. É preciso ter respeito e compaixão com o próximo. Porque muitos não sabem ou não querem entender que não somos mais transmissores da doença.

O momento leva a reflexão de que…
Quando passamos por uma situação assim que foge a nossa rotina, ainda mais nessa em que ficamos fechados dentro de casa, nos faz rever sobre o trabalho, os familiares e dar mais valor à vida.
Tudo isso, mexeu muito com o meu lado psicológico porque eu sou um ser humano bem ativo. Não podia sair no portão da minha casa para olhar a rua.
Gostaria também de deixar registrado aqui, que me solidarizo com os comerciantes da cidade e com os proprietários de comércio informal que estão parados.

“Trabalho com a Corporação da Guarda Municipal 12 horas por dia
e quando passamos pelas ruas e vemos tudo parado,
é triste. Muito triste!”

O apoio e carinho mútuo de um com o outro, fez o casal passar pelo momento mais difícil da doença / Foto: Arquivo Pessoal


O casal finaliza que:
“Hoje, enfrentamos essa doença de frente, mesmo sendo ela, uma doença invisível. Mas, temos confiança e, acima de tudo, fé em Deus. Agora é um momento de rever a vida, ter novos conceitos e analisar o que fizemos de bom. Tempo para corrigir o que fizemos de errado no passado e acertar tudo.
Parar de pensar em ‘coisinhas’, ter mais respeito e amor com o próximo. Também pedir mais respeito para os profissionais de saúde, independente da função, do faxineiro ao médico, porque todos trabalham para salvar vidas e não somente os médicos.

“Principalmente, que todos respeitem as pessoas
que se curaram da Covid-19” 

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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