Quarta-feira , 18 Outubro 2017
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Descanse em Paz

 

Eu me lembro do dia em que Demóstenes Soares morreu na cadeia. 20 anos se passaram desde a sua prisão. Acusado de roubo e assassinato do parceiro, os moradores de sua terra natal, a cidade de Nova Argentina, nunca souberam o paradeiro da fortuna, de que  material se tratava e, principalmente, onde Demóstenes Soares teria desovado o corpo de seu comparsa.

Depois da morte de Demóstenes, um malandro cidadão do local conhecido como Voodoo que estava preso na mesma cadeia que o falecido, começou a instigar e fomentar a curiosidade dos moradores alegando saber onde estava a fortuna.

Fiquei sabendo da fofoca pelo senhor Hilário Salvador, um velho paralítico e muito surdo que morava na cidade há duas décadas, e que, apesar dos seus 75 anos e das deficiências físicas, tinha uma excelente memória e conhecia bem os fatos e lendas que cercavam de mistérios Nova Argentina.

Excelente jornalista e muito curioso, mais que depressa me interessei pela história e tratei logo de marcar uma entrevista com Voodoo. Seu Hilário me acompanhou.

– No tempo que estive preso com o velho na cadeia, ele confessou que roubou sim uma fortuna em joias e selos valiosos, mas também garantiu que nunca matou ninguém. E afirmou que seu companheiro de roubo está muitíssimo vivo e próximo de todo mundo. Meu ex-comparsa só está esperando que eu morra para desenterrar o tesouro.

– Demóstenes Soares revelou onde está escondido o material do roubo?

– Especificamente não. Porém, me deu uma dica.

– Que dica foi essa, interpelou Seu Hilário, muito atento à conversa?

– Virgem Mãe, Rogai por Nós, frisou o velho várias vezes.

– Essa citação está relacionada com a Bíblia Sagrada, disse interessado Seu Hilário.

– É no que eu acredito. Por isso, já estou lendo e muito a Bíblia. Essa fortuna deve estar escondida dentro da única igreja que nós temos aqui em Nova Argentina. E as citações é que vão revelar o lugar.

Terminada a entrevista, despedi-me de Seu Hilário e fui embora para redigir a matéria. Porém, o que eu não esperava foi quando o Jornal “Notícias da Cidade” circulou com a reportagem, começasse uma guerra na cidade. Foi inacreditável. Após a revelação de Voodoo, os moradores iniciaram um quebra-quebra na igreja acreditando que o tesouro estava escondido dentro dela. Arrebentaram paredes, destruíram imagens de santos, provocando uma desolação total.

Eu, Seu Hilário e Voodoo apenas acompanhamos a barbárie sentados em um boteco de praça bebendo uma deliciosa cerveja gelada. Ao mesmo tempo, tentávamos decifrar a dica de Demóstenes Soares, quando veio se juntar a nós, o policial Ivan Marra querendo também descobrir o tesouro. Quatro cabeças maquiavélicas trabalhando juntas não foi difícil desvendar a dica.

‘Virgem Mãe, Rogai por Nós’, tratava-se de uma inscrição de lápide no cemitério barroco de Nova Argentina. Enquanto todos continuavam com o quebra-quebra, nós quatro seguimos imediatamente para o cemitério. Ao chegarmos no lugar, cada um se responsabilizou por checar dois corredores de túmulos até identificar em qual estava o tesouro. Passado alguns minutos, Seu Hilário gritou:

– Encontrei a lápide.

Corremos para lá e para nossa surpresa o túmulo era de Demóstenes Soares. Ivan e Voodoo começaram a cavar e chegando ao fundo, viram um baú. Os dois se jogaram desesperadamente para ver quem pegava primeiro o baú e mais uma surpresa: Seu Hilário levantou da cadeira de rodas e começou a brigar com os outros dois. Revelação total. Seu Hilário Salvador, era ninguém menos que o comparsa desaparecido que só esperou o momento certo para desenterrar o tesouro.

Após alguns tapas e socos entre eles, decidiram dividir o tesouro. Eu esperava o momento certo de pegar minha parte e sumir dali logo. Ao subirem o baú e abri-lo, espanto e bocas abertas. Nada de tesouro e apenas um bilhete contendo uma mensagem sarcástica:

“Rá-rá-rá. Otários! Não está aqui.

Descanse em paz, 2Rs, 7Q, 3Ts!”

Nós quatro corremos cada um para seu lado para buscar na Bíblia Sagrada a resposta para o código do bilhete. O que ninguém se ateve nesta batalha foi que 2Rs, 7Q, 3Ts, não era uma citação bíblica, mas sim, Rua 2, Quadra 7, Túmulo 3. Ou seja, duas vias paralelas para direita do corredor em que estava túmulo de Demóstenes Soares.

À noite, voltei sozinho ao cemitério, cavei no lugar indicado e lá estava dentro de uma bolsa de couro antiga, R$ 10 milhões em diamantes, rubis e selos. Juntei tudo e fugi de Nova Argentina. Aproveitei a vida ao seu extremo com muita luxúria, vaidade e ostentação. Me tornei um rei.

Jamais me encontraram ou souberam que eu havia ficado com o tesouro inteirinho somente para mim até esse momento em que deixo como registro jornalístico e histórico a revelação do fim de um mistério que durou mais de um século.

Já estou morto. 50 anos se passaram desde que a história aconteceu. Se alguém encontrou essa crônica, deixo a seguinte dica:

“Onde está o teu coração, ali também está o teu tesouro!

Ah, Ah, Ah. Decifrem essa!” 

Autor: Flávio Ribeiro

Sobre Otavio Bueno

Diretor de Comunicação das Empresas ODBO Design + Web e O POLO e Marketing Communications Specialist na ASTUS Medical. Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Unip – Swift e estudou Design Gráfico na instituição Arquitec - Escola de Arte e Design.

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