Domingo , 19 Novembro 2017
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  • Sommerset House: uma das alas é destinada para a Faculdade de Direito da KCL e também abriga um Museu e a London Fashion Week

  • Vista do "Pateo" do Campus de Strand da KCL

  • Lateral da Maughan Library

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DIÁRIO DE INTERCÂMBIO

Ensino Superior Britânico

Quinze dias depois de chegar a Londres começaram minhas aulas propriamente ditas. Mas antes de conversar sobre o King’s College London [KCL] e as aulas de Direito, é justo falar como funciona o ensino superior britânico. Vale lembrar, que este é apenas um panorama, e, portanto, alguma nuance pode se aplicar.

Em primeiro lugar, é válido destacar que as instituições de ensino do Reino Unido estão entre as melhores do mundo, quer pelo ranking da Times Higher Education ou pelo da QS University. Geralmente, nestas qualificações, há mais de um terço de universidades britânicas entre as 20 ou 30 melhores do mundo. Mas, percebe-se que, além de algum glamour e um padrão minimamente esperado de qualidade, este dado não quer dizer muita coisa.

Três diferenças que mais me chamaram atenção aquiem comparação ao Brasil foram:

1) A origem do financiamento da universidade. Aqui, mesmo as universidades públicas cobram uma taxa de seus alunos, seja de graduação ou pós-graduação. Esta taxa, na verdade, é cobrada na maior parte da Europa [com exceção da Alemanha] e, também, nos Estados Unidos. Além disto, as faculdades públicas recebem verbas governamentais e também das parcerias e doações que recebem de entes privados [pessoas físicas ou jurídicas], sendo estas doações especialmente polêmicas no Brasil. A Faculdade de Direito da KCL, por exemplo, recebeu mais de £ 20 milhões de um ex-aluno alguns anos atrás, numa das maiores doações do gênero feitas na Inglaterra.

2) A enorme diferença do número de matérias feitas por semestre. Enquanto uma ‘grade cheia na Faculdade de Direito da USP [Universidade de São Paulo] tem em média, oito disciplinas semestrais e [apenas no período da manhã ou da noite], aqui temos como grade cheia quatro matérias por semestre, com maior flexibilidade para que os alunos escolham suas matérias optativas. Na prática, isso significa mais tempo para pesquisa, leitura dos textos passados pelos professores e para a apreensão do conteúdo propriamente dito. Mas, ainda é cedo para dizer qual ‘funciona melhor’.

3) É muito marcante a estrutura da biblioteca da faculdade. O acervo do curso de Direito fica na Maughan Library, que é simplesmente deslumbrante. A biblioteca, que já apareceu em O Código Da Vinci, com sua sala de doze lados, fica num prédio igualmente maravilhoso do Século XIX com origem em um mosteiro do Século XII, construído por Henrique III. Entretanto, toda esta tradição não impede a biblioteca de ter um acervo atualizado, digitalizado, acessível aos estudantes e ao público em geral [para consulta] com terminais de autoatendimento para pesquisa, empréstimo e devolução dos livros. Detalhe: funcionamento 24h por dia a semana toda.

Aliás, falando sobre o King’s College London, a faculdade é parte da Universidade de Londres [uma estrutura difícil de explicar, para ser sincero] que é dividida em oito grandes departamentos. Ela está espalhada por seis campus, fora os demais prédios, e a Dickson Poon School of Law [Faculdade de Direito do KCL] que ocupa uma das asas da Sommerset House, obra imponente às margens do Tâmisa, que também abriga a London Fashion Week, por exemplo, e tem vista para os pontos turísticos da cidade.

Ainda como curiosidade, entre antigos alunos e professores da faculdade [oficialmente fundada em 1829], estão doze prêmios Nobel, sendo eles, Nobel da Paz [Arcebispo Desmond Tutu], Nobel de Literatura [(Mario Vargas Llosa, ainda professor associado da KCL], Nobel de Química, além de mais quatro prêmios em Física e outros cinco em Medicina.

Também há inúmeros antigos alunos famosos como Virgínia Woolf e a precursora da Enfermagem Moderna, Florence Nightindale.

Quanto ao Direito, especificamente, vale dizer que os professores são extremamente acessíveis aos alunos – pelo menos aqueles quem encontrei –, e que, inclusive, um dos professores titulares da faculdade é brasileiro.

O modelo de ensino é dividido em lectures [aulas expositivas em turmas maiores] e seminars e tutorials, seminários realizados com a participação dos alunos em grupos menores. A mesma matéria pode mesclar diferentes modelos.

Por último, quero muito dizer que tudo isto pode dar a impressão de que estou no paraíso do ensino do Direito na Terra e que não temos instituições sérias formem excelentes aplicadores e teóricos do Direito no Brasil.

Não posso opinar quanto a outros campos do conhecimento e, também, de maneira nenhuma, quero ser dono da verdade.

Devo apenas pontuar que, apesar da excelente qualidade da KCL, de sua estrutura e todos os comentários acima feitos, ela também tem burocracia. Alunos engajados e não engajados. Questões a serem trabalhadas para melhora, como faculdades públicas e privadas no Brasil. E, principalmente, que podemos sim formar profissionais de ponta em nosso país, quer em faculdades públicas ou privadas. Continuo acreditando, desde sempre que, apesar do estímulo correto e de boa estrutura serem muito necessários, o essencial e o maior diferencial é sempre o aluno.

 

Até daqui 15 dias, quando vocês vão conhecer os bairros de Soho e Camdem Town!

 

 

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