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É possível viver o luto de modo mais leve?

Falar de perdas, morte e luto é desafiador, pois vivemos numa cultura que valoriza a vida e tem dificuldades em lidar com as perdas. Não nos preparamos para perder um ente querido e/ou para nossa própria morte. Mesmo sabendo que a morte é uma certeza para todos, independente do momento em que estamos vivendo, a perda de alguém que amamos é uma experiência extremamente dolorosa.

Neste artigo abordei o luto vivenciado em situações de morte, porém, também vivenciamos o luto em outras situações de perda como num término de relacionamento, em um divórcio, entre outras, e cada um com significados diferentes.

De acordo com Horta e Daspett[2017]: “a perda gera uma fratura no sistema familiar que levará em conta o contexto social e étnico da morte; o histórico de mortes anteriores, a fase do desenvolvimento do ciclo vital; a natureza da morte ou da doença; a posição e função da pessoa na família e a abertura do sistema familiar para possibilidades de enfrentamento e reorganização de uma nova etapa”.

A morte e a perda são experiências universais, mas cada indivíduo lida com ela de um modo particular, sente de uma maneira, de acordo com suas crenças, valores e com o tipo de relação, ou seja, com o vínculo e convivência que possuía com o ente querido que faleceu.

Deste modo essa experiência de luto de morte e o processo de adaptação a essa ausência podem afetar consideravelmente todos os aspectos da vida de quem permanece vivo.

Reconhecer o processo de luto, bem como, conhecer o que é esperado neste processo é fundamental para ajudar o indivíduo lidar com a perda.

A National Mental Health Association indica o que de fato ajuda aqueles que perderam um ente querido a lidar com o luto:

-Demonstrar empatia e acolhimento;

-Ouvir e permitir que o enlutado, simplesmente expresse seu pesar. Não ofereça falso conselho, por exemplo: “ assim foi melhor” ou “com o tempo você supera”;

-Conversar e encorajar a pessoa que sofreu a perda a falar de seus sentimentos e compartilhar memórias do ente querido, deste modo, estará compartilhando e expressando sua dor;

-Oferecer auxilio prático: como cozinhar, ajudar com as crianças, fazer pequenos favores, são maneiras de colaborar com a pessoa enlutada.

Acredito que encorajar a enfrentar com o apoio da fé, quando faz sentido ao enlutado este recurso, também seja uma forma de ajuda, assim como sugerir ajuda profissional quando necessário.

Em um processo de luto é esperado, que o indivíduo passe do sofrimento intenso à elaboração da dor, de modo que a pessoa enlutada admita a dor da perda, aos poucos se desprende do vínculo com o ente querido que faleceu e se readapte a vida sem a pessoa, desenvolvendo novos recursos e permitindo novos relacionamentos. A tendência é que a dor termine, mas a saudade segue presente sempre.

De acordo com Celina Daspett, psicóloga e terapeuta familiar, de casais, há além do luto como processo normal, outros tipos de lutos que normalmente as pessoas desconhecem como o luto complicado/prolongado, luto crônico, antecipatório e não reconhecido. Esses tipos de luto foram e são estudados por vários psicólogos e pesquisadores no mundo.

No processo do luto complicado/prolongado, as reações são mais intensas e permanecem por mais tempo. Normalmente não há uma elaboração do luto, o tempo passa e o indivíduo continua preso e chorando pela pessoa que partiu, mortes por suicídio, acidentes e inesperada, enfim, mortes trágicas podem desencadear este tipo de luto. Como dito anteriormente, o luto é um processo e, ao seu final, a pessoa é capaz de voltar a reinvestir no mundo exterior.

O luto adiado, não elaborado ou não resolvido, ocorre quando não há a comprovação da morte do ente querido. Este tipo de luto é vivido em caso de pessoas que desaparecem e em casos de tragédias. A incerteza de que pessoa está morta, favorece o sentimento de esperança, que sustenta o ideal de que o retorno poderá acontecer. Como exemplo temos o recente acidente ocorrido na barragem de Brumadinho.

Um outro tipo de luto é o antecipatório, quando se tem um membro da família em processo de morte. Este luto ocorre antes da perda real da pessoa com diagnóstico de uma doença que poderá evoluir para morte. Os familiares costumam apresentar reações de tristeza e desesperança antes do veredicto final.

E ainda, há o luto não reconhecido, onde socialmente não há um reconhecimento da dor da perda, como por exemplo, em caso de luto gestacional, de mãe de assassinos, traição, morte de um animal de estimação, entre outros. Como afirma a psicóloga Casellato[2015]: “Essa é a dor que não pode ser compartilhada, seja porque o próprio enlutado não a valoriza como algo significativo ou porque a própria sociedade não reconhece”.

Deste modo, compreende-se que o luto precisa ser vivido, não deve ser apressado ou interrompido, deve ser respeitado, entretanto, é preciso viver o processo de luto para não viver de luto.

Hoje já existem terapias específicas voltados para ajudar os enlutados a passarem pelo processo, especialmente, em situações de morte traumática ou resultados de tragédias.

A Psicoterapia é recomendada com objetivo de acolher e facilitar a expressão de sentimentos associados a perda do ente querido, para identificar os recursos disponíveis, ampliar rede de apoio, auxiliar na tomada de decisões, ampliar as possibilidades de enfrentamento e reorganização de uma nova etapa.

Entrar em contato com a morte e com a perda de pessoas que amamos pode ser uma experiência transformadora. Um dos aspectos mais transformadores é a forma como passamos a olhar a vida. Ela passa a ter outros sabores, outros valores; passamos a valorizar cada dia, cada momento, cada encontro… portanto, diante da certeza da morte, mesmo que longínqua…

Viva o dia, de modo mais leve!

Temos o hoje, repense e reconstrua sua história, seus momentos e seus encontros.

Referências
PAPALIA, D.; FELDEMAN, R. Desenvolvimento Humano, 12ª edição, Porto Alegre: AMGH, 2013. PAYA, Roberta Intercambio das Psicoterapias: Como cada Abordagem Psicoterapêutica compreende os Transtornos Mentais, São Paulo: Editora Roca,2017.

Patrícia Galo Firmino – Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual. Pós-Graduanda em Terapia Familiar e de Casal pela UNIFESP, Especialista em Aconselhamento Cristão e Pós-Graduada em Metodologia do Ensino Superior. Ministra palestras e cursos para pais, educadores e profissionais.

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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1 thought on “É possível viver o luto de modo mais leve?”

  1. Parabéns Patrícia pelo seu artigo. O luto precisa ser vivido para que o ente que se foi encontre a paz e os que ficaram sigam suas vidas convivendo com as boas lembranças e recordações.

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