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Entendendo as causas da crise

O debate econômico nacional, desde pelo menos meados de 2015, parece ter se resumido à análise das causas, consequências e possíveis soluções para a crise econômica.

Entretanto, em virtude do acirramento da polarização da disputa política, a compreensão dos fundamentos da instabilidade econômica atual tem sido permeada por análises muitas vezes superficiais e que tem como objetivo justificar de maneira supostamente científica medidas que favoreçam determinados grupos de poder [políticos e econômicos].

Neste cenário, esta minha coluna de estreia em O Pólo, tem como objetivo apresentar de maneira sintética e didática os principais argumentos das diversas linhas de pensamento econômico, a fim de se traçar um panorama das causas da crise.

O primeiro elemento destacado por inúmeros economistas das mais diferentes vertentes políticas e teóricas diz respeito à piora das expectativas entre os diversos agentes econômicos. A partir da piora destas expectativas, empresários retraem seus investimentos, consumidores reduzem suas compras e assim sucessivamente.

A soma destas ações, por sua vez, leva à desaceleração da economia e a um ciclo vicioso que resulta em redução de empregos, queda da demanda, da produção, dos lucros, da massa salarial, da arrecadação do poder público, etc.

Neste cenário, a causa da piora das expectativas pode ser explicada por fatores externos e internos. Na dimensão externa, a dificuldade da economia internacional em recuperar os níveis de crescimento pré-crise de 2008/2009 afeta negativamente a capacidade de crescimento da economia brasileira. Isso porque, a demanda pelas exportações nacionais se enfraquece, ao mesmo tempo em que a instabilidade financeira global afeta os mercados financeiros locais, com impactos na bolsa de valores, na cotação do dólar, na disponibilidade de empréstimos internacionais, entre outros.

Já na dimensão interna, a piora das expectativas é influenciada basicamente por fatores como: a) deterioração do cenário político; b) a própria expectativa de diminuição na demanda interna, agravada pelo aumento do desemprego e pela queda da massa salarial; c) a dificuldade do Estado manter e ampliar os investimentos públicos e, assim, estimular o crescimento econômico nacional.

O segundo elemento para se explicar a crise apresenta características de ordem estrutural. Depois de um longo ciclo de crescimento durante os anos 2000, a economia brasileira teria – em tese – esgotado um padrão de crescimento que estaria amparado na formação de uma nova classe média [também denominada de Classe C)] na redução da desigualdade de renda, no consumo fundamentado na expansão do crédito, dos salários e do emprego, e no financiamento imobiliário. Nesta leitura, para a retomada do crescimento, seriam necessárias medidas que viabilizassem um novo modelo do mesmo.

Por fim, o terceiro elemento para se compreender a crise atual diz respeito à gestão da própria política econômica, criticada tanto por economistas à direita quanto à esquerda do Governo. Segundo os primeiros, o Banco Central teria sido exageradamente conivente com a inflação, ao mesmo tempo em que a União, estados e municípios não teriam realizado reformas necessárias para reduzir os gastos públicos.

Já segundo economistas à esquerda do Governo, a taxa de juros praticada pelo Banco Central seria excessivamente elevada, o que estaria conduzindo a uma desaceleração da economia [via aumento do custo do crédito, entre outros fatores] e a um aumento da dívida pública [uma vez que esta é remunerada, grosso modo, pela taxa de juros definida pelo próprio Governo Central). Ainda segundo estes economistas, ao decidir por reduzir substancialmente os investimentos públicos, União, estados e municípios teriam contribuído para reduzir a demanda local.

Neste cenário, com uma crise que exige análises complexas, quais seriam as principais interpretações sobre as medidas necessárias para a retomada do crescimento brasileiro? É exatamente este o tema de nossa próxima coluna na última quinta-feira do mês de fevereiro.

 

Sobre Antônio Carlos Diegues

Antônio Carlos Diegues, 33, é Doutor em Economia pela Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] e Professor do Departamento de Economia da Ufscar [Universidade Federal de São Carlos]. Há dez anos é pesquisador e consultor do Bndes [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e Ipea [Instituto e Pesquisa Econômica Aplicada]. Também escreve artigos para os jornais de circulação nacional Folha de São Paulo e Valor Econômico, entre outros.

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