Variedades

Guaçuana é premiada no Anima Mundi 2018

Animação conta história de dinheiro, medo e coisas de meninos e meninas

‘Lé com Cré’, animação de pouco mais de cinco minutos da diretora Cassandra Reis, 26, recebeu o Prêmio Carlos Saldanha de Melhor Curta de Estudante Brasileiro no 26º Anima Mundi 2018, que aconteceu de 21 a 29 de julho, no Rio de Janeiro, e entre 1ºe 05 de agosto, em São Paulo, onde também foi premiado como Melhor Curta Infantil pelo Júri Popular. Este foi primeiro trabalho da guaçuana como diretora.

“Já participei de outros curtas de animação durante a faculdade, como animadora e cenarista. Mas este é meu primeiro projeto como autora”, conta.

Quem subiu ao palco para anunciar a premiação no Rio, foi ninguém menos que Carlos Saldanha, diretor cinematográfico, produtor, animador e dublador brasileiro, que é o codiretor de A Era do Gelo e Robôs, e o diretor de Gone Nutty, A Era do Gelo 2 e A Era do Gelo 3, sendo talvez, um dos diretores de animação 3D mais conhecido no mundo por seus sucessos de bilheteria.

Além do prêmio da guaçuana, Carlos Saldanha também divulgou o vencedor do melhor curta-metragem brasileiro para ‘O Homem na Caixa’, de Ale Borges, Alvaro Furloni e Guilherme Gehr.

Cassandra Reis é graduada em Audiovisual pela ECA [Escola de Comunicação e Artes] da USP [Universidade de São Paulo] e, atualmente, trabalha na Coala Filmes, uma produtora de animação stop-motion, na área de arte de produção e reparos de bonecos e cenários de São Paulo. “Em paralelo, tento desenvolver projetos pessoais”.

Anima Mundi
Criado com o objetivo de fortalecer o mercado de animação do Brasil, hoje o Anima Mundi é o maior festival da América Latina, sendo mais que um evento, pois tornou-se uma plataforma de animação que oferece experiências para animadores, educadores, produtoras e animaníacos.

A diretora conta que ´Lé com Cré’ é um documentário animado sobre três temas um tanto aleatórios como: dinheiro, medo e coisas de meninos e de meninas. Partindo disso, sete crianças – Bárbara, Caetano, João Pedro, Matheus, Nicole, Roger e Ysabelly -, representadas como escolheram [um quis ser um elefante azul, outro um artista, por exemplo], definem e falam suas impressões sobre cada um deles. “Digo isso porque ‘Lé com Cré’ nasceu como uma série de interprogramas bem curtinhos, em que cada episódio trata de um tema”.

Segundo ela, a ideia inicial era produzir sete temas diferentes, mas por questões de produção e com o intuito de fazer o que fosse possível da melhor maneira, alguns ficaram pelo caminho. “Ah, mas desde sempre, houve a ideia de reuni-los numa espécie de mini glossário. Só não pensávamos de início que seria tão mini assim”.

Junto com o filme, ela precisou entregar um relatório escrito para uma banca de TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]. “Em um dos primeiros capítulos, expliquei um pouco sobre a criação do projeto”.
Antes do Anima Mundi, ‘Lé com Cré’ foi exibido nos festivais Lanterna Mágica de Goiânia [GO] e no Anima Latina de Buenos Aires [Argentina].

“Fora isso, estamos aguardando a resposta de outros festivais nos quais o filme foi inscrito”.

Como experiência do Anima Mundi 2018, comenta que “foram anos produzindo o filme. O Anima Mundi foi a primeira vez em que pude acompanhar exibições públicas do ‘Lé com Cré’ e isso foi bastante importante para fechar o ciclo do filme que, por tanto tempo, foi desenvolvido e feito com o objetivo de ser exibido e se comunicar, de alguma forma, com o público”.

E no futuro, os projetos incluem continuar na área de animação e produzir conteúdo para crianças.

Para mais informações do Anima Mundo 2018, acesse:
http://www.animamundi.com.br/pt/

Repercussão
A repercussão junto ao público têm sido positivas e as melhores possíveis. “Ganhar o prêmio de público, de certa forma, evidencia isso. Mas participar das sessões, ouvir os comentários de crianças e adultos ao final, conversar com quem assistiu e saber o que acharam foi e é de extrema importância”.

Por enquanto, o link não está liberado, porque os festivais pedem que o filme ainda não esteja público na internet. “Portanto, até encerrarmos as inscrições, o que deve levar cerca de um ano mais ou menos, o filme só poderá ser visto [espero] nos próprios festivais e mostras”.

O nascimento do projeto, com a narrativa de Cassandra Reis:
No curso de audiovisual, é necessário que os alunos apresentem, no semestre anterior ao que seria o final, no meu caso, o final demorou um pouco mais para chegar, um projeto no qual elaboram, desenvolvem e defendem sua pesquisa ou produção prática proposta como TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]. Sendo assim, no primeiro semestre de 2014, elaborei e desenvolvi o projeto inicial do ‘Lé com Cré’, que veio a ser defendido somente no fim do segundo semestre do mesmo ano, após uma longa greve.

Há muito tempo que não dava uma olhada nele, mas aqui estou com ele aberto, e vejo que, apesar de projeções muito otimistas ou melhor dizendo, ambiciosas e um texto um tanto confuso, muito de sua essência se manteve.

O projeto já rondava minha cabeça desde o início de 2013. Nesse ano, durante uma aula de modelagem no Departamento de Artes Plásticas da ECA, assistimos a ‘Só dez por cento é mentira’, documentário biográfico sobre o poeta Manoel de Barros. Independente de me encantar ou não como peça audiovisual, o documentário me iniciou na obra de Manoel e nela pude ver um encanto pelo olhar infantil, vestido de uma segurança de quem fala sobre algo relevante e comum a todos. Afinal, todos já foram ou são crianças.

Porque se a gente fala a partir da criança, a gente faz
comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde
suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu
trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante
e oblíqua das coisas.” [BARROS, 2010, pg.30]
Não muito tempo depois, esbarrei ainda no livro ‘Casa das Estrelas’,
de Javier Naranjo, professor colombiano que colheu de seus alunos vários depoimentos sobre diversos temas e os reuniu no livro. Deparei-me novamente com esse encantamento e o projeto, a partir daí, tornou-se inevitável.

Queria fazer algo semelhante, ouvir das crianças o que elas teriam a dizer sobre as coisas e me forçar a olhar por esse mesmo ponto de vista. Fazer um documentário sobre isso, então, não me parecia má ideia.

A ideia, porém, de usar a imagem real dos entrevistados me incomodava bastante. Não só por receio de não usá-las com responsabilidade, mas também por não me sentir no direito de tê-las. Por serem menores de idade, a autorização sempre seria dada pelos pais ou responsáveis e eu precisava de um pouco mais do que isso. Queria ser autorizada pelas próprias crianças e queria que, de alguma forma, elas tivessem mais direitos sobre a própria imagem do que lhes são dados normalmente. Queria que minha influência sobre a imagem fosse clara, que eu não pudesse mentir sobre uma não interferência no olhar, ao mesmo tempo que ela só pudesse partir de algo muito particular de cada uma delas. Com isso, não lembro se depois de muito ou pouco pensar, decidi: elas falariam como gostariam de ser no documentário e, partindo desse desejo, eu faria a versão personagem delas e, inevitavelmente, faria uma animação.

Agradecimentos
“Ao longo da produção, acabei concentrando algumas funções por receio de não saber o que queria e acabar confusamente onerando pessoas por muito tempo, em um projeto que, por conta disso, elas poderiam não gostar. Por isso, em grande parte do tempo, sei que trabalhei aparentemente sozinha [ou na cenografia, ou animando no estúdio]. Esse ‘aparentemente’ é para dizer na verdade que, no que dizia respeito a propósito [fazer o filme ficar pronto, com tudo que eu acreditava nele), eu nunca estive de fato sozinha. Sempre tive uma equipe que, mesmo à distância, trabalhava pelo projeto e me socorria sempre que necessário.

A Mari, produtora e co-roteirista do filme, sempre acreditou muito no projeto e foi um apoio imenso saber que eu não fazia aquilo tudo para uma ideia que existia só na minha cabeça. Num processo tão longo como foi o ‘Lé com Cré’ [e eu sendo diretora de primeira viagem], foi muito importante ter com quem compartilhar todas as crises e poder pensar em soluções para elas juntas. Foram anos para fazer essa pequena animação e, com certeza, ela não seria o que é, se não fosse a dedicação de muitas pessoas a ele. Todas fizeram trabalhos incríveis e só tenho a agradecê-las”.

Créditos:
Direção, Direção de Arte e Animação: Cassandra Reis
Roteiro: Cassandra Reis e Mariana Lopes
Produção: Mariana Lopes e Victor Casé
Bonecos e Cenário: Cassandra Reis e Gabriel Barreto
Direção de Fotografia e Correção de Cor: Gabriela Akashi
Captação de Som e Montagem: Raquel Vieira
Assistente de Produção: Flávia Lucena
Motoristas: André Costa Mello, Marcos da Silva e Vanderlei Aparecido Bomfim
Artista de Efeitos Digitais: Yugo Hattori
Vinheta e Créditos: Renan Ramiro
Edição de som: Felipe Cadillac
Mixagem: Sandro Costa
Trilha Musical:
sica e Direção Musical: Gustavo Kurlat
Produção Musical e Arranjos: Gustavo Kurlat, Caio Torrezan e Rafael Thémes
Clarinete e clarone: Daniel Oliveira
Piano: Lucas Vargas
Violão: Caio Torrezan
Instrumentos virtuais: Caio Torrezan e Rafael Thémes
Produção Executiva: Andre Minnassian
Gravacão, edição e mixagem: Caio Torrezan e Rafael Thémes – Estúdio Play It Again

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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