Sábado , 18 Novembro 2017
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Haveria mesmo unidade nacional?

Nas duas últimas edições desta coluna, procurei apresentar as principais interpretações acerca dos motivos da crise econômica atual e das potenciais medidas para sua superação.

Entretanto, com o acirramento das tensões políticas e institucionais no último mês, um novo cenário tem se materializado. Com o aumento da possibilidade da deposição da presidente Dilma, novamente os fatores políticos se sobrepõem – como quase sempre, no Brasil e no mundo todo – aos econômicos.

Neste cenário, a leitura inicial difundida pelos principais veículos da mídia tradicional reflete os anseios do mercado financeiro como: de que com a derrubada do atual governo haveria uma significativa melhora das expectativas econômicas, as quais levariam à pavimentação de uma nova trajetória de crescimento. Esta trajetória inicialmente se basearia em um suposto sentimento de alívio de uma parcela da sociedade e, com base na retomada da confiança no país, levaria rapidamente ao desengavetamento de decisões de investimento e consumo que teriam sido adiadas nos últimos anos.

Apesar da importância das expectativas para as decisões de investimento e consumo, o debate econômico e político atual contaminado por um misto de amor e ódio parece ter se esquecido de analisar com profundidade e isenção os supostos fundamentos sob os quais floresceria um novo clima de paz política e prosperidade econômica.

As análises que relevam a um segundo plano esses fundamentos buscam, muitas vezes, traçar um paralelo com o impeachment de Fernando Collor, o qual foi sucedido por um governo de coalização com relativa estabilidade.

No entanto, [para não repetir ‘Entretanto’ novamente] uma leitura mais detalhada do cenário atual mostra inúmeras diferenças entre esses dois momentos. Ao contrário do que se imagina, são inúmeros os fatores que podem levar a um acirramento da tensão política, social e institucional. Dentre eles, cabe citar:

1) O processo de deposição do atual governo, justificado pela opinião pública como uma marcha anticorrupção [nova regra] é capitaneado por um enorme grupo de parlamentares sob os quais pesam enormes evidências de corrupção, com especial destaque ao presidente do Legislativo, Eduardo Cunha;

2) Todos os principais interessados na queda da atual presidente, aqueles que estão imediatamente abaixo da mesma na linha sucessória [Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros] e o segundo colocado nas eleições de 2014 [Aécio Neves] tem sido sistematicamente denunciados como beneficiários dos mais diversos esquemas de corrupção, muitas vezes nos mesmos escândalos que assolam o governo que está sendo contestado. Deste modo, é difícil imaginar que em um cenário pós Dilma as mesmas manifestações que pediram sua queda se organizem novamente para ir às ruas defender e dar sustentação política a um novo governo gestado a partir destes quadros;

3) Ao contrário do que aconteceu com Fernando Collor, uma caricatura de Salvador da Pátria que emergiu em um cenário em que havia um ‘mix’ de desilusão política e êxtase pós ditadura militar, há um conjunto representativo de forças políticas na sociedade brasileira que se identifica historicamente com o projeto político capitaneado pelo atual governo. Tal força, apesar da crise de credibilidade atual, não pode ser menosprezada. Apenas a título de ilustração, destaca-se dado apresentado em entrevista publicada pelo Valor Econômico de 29 de março de 2016  – “Perder dói muito mais que deixar de ganhar”, diz Renato Meirelles -, segundo o qual “se 36% odeiam a Dilma e tudo o mais [principalmente nas classes A e B], 44% dos brasileiros que estão insatisfeitos com a Dilma avaliam mal o governo justamente porque ele não ampliou o Fies, o Prouni, não promoveu aumento real do salário mínimo, não cumpriu promessas de campanha, de redução de desigualdade que, no limite, fizeram Dilma ganhar a última eleição presidencial”;

4) Há um intenso debate entre intelectuais e juristas de instituições de destaque nacional e internacional sobre a fundamentação legal do processo de impeachment em curso. Independentemente das preferências políticas legítimas e democraticamente garantidas de cada cidadão, ao contrário do que se pode imaginar, este não é um tema líquido e certo, baseado apenas em argumentos factuais e isentos de interpretação, conforme demonstra posição defendida por juristas em seminários realizados, inclusive, em instituições tradicionalmente conservadoras politicamente como a USP [Universidade de São Paulo] e a PUC-SP, entre inúmeras outras.

Neste cenário, em virtude dos elementos apresentados anteriormente, o que se pretender trazer para o debate é o fato de que é no mínimo muito incerta a tese defendida principalmente pelo mercado financeiro e pela oposição de que com a instauração de um novo governo quase que automaticamente se conseguiria reestabelecer a paz e a unidade nacional, fatores estes que levariam a pavimentação de um suposto novo período de prosperidade. Nossa história é pródiga em ensinamentos e tem muito a nos dizer sobre momentos como este

Sobre Antônio Carlos Diegues

Antônio Carlos Diegues, 33, é Doutor em Economia pela Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] e Professor do Departamento de Economia da Ufscar [Universidade Federal de São Carlos]. Há dez anos é pesquisador e consultor do Bndes [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e Ipea [Instituto e Pesquisa Econômica Aplicada]. Também escreve artigos para os jornais de circulação nacional Folha de São Paulo e Valor Econômico, entre outros.

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