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Medo e ansiedade com a crise do coronavírus?

Psicóloga dá dicas de como cuidar melhor da saúde mental durante este período crítico da pandemia da Covid-19

Prestar atenção aos cuidados relacionados à prevenção da transmissão e tentar manter a calma estão entre os principais fatores, de acordo com os especialistas da área de saúde.

Diante da incerteza gerada por essa situação inusitada para o mundo todo e de reordenamento social, como as pessoas podem superar o mal-estar emocional que sentem no momento?

A psicóloga da Clínica Bem-Estar, Flávia Lima Morgon, 45, conversou com O Polo no intuito de oferecer sugestões saudáveis para as pessoas, durante esta fase que ainda não tem uma data para terminar.

Flávia Morgon continua atendendo seus pacientes por meio de videoconferência / Foto: Otávio Bueno


A ansiedade pode se manifestar
 de várias formas: nervosismo, agitação, estado de alerta; não conseguir pensar em outra coisa; necessidade de ver e ouvir constantemente informações sobre o coronavírus; dificuldade para realizar tarefas diárias.
Como o ser humano pode melhorar este estado de agitação constante?
Se manter equilibrado e com saúde mental nesse período em que estamos vivendo é desafiador. De fato, a ansiedade pode se manifestar de formas variadas e apresentar outros sinais como taquicardia, sudorese e insônia. A falta de controle e previsibilidade dos acontecimentos também podem favorecer sintomas ansiosos.
Especialistas e órgãos como a OMS [Organização Mundial da Saúde], comentam sobre os impactos da pandemia na saúde mental da população e sugerem que busquemos notícias apenas duas vezes ao dia, em sites e jornais confiáveis e éticos. Outra indicação importante é a de buscar uma rotina disciplinada, apesar das circunstâncias.
Temos hoje, uma boa parcela da população em casa trabalhando em home office ou em férias, mas sem programação, além das crianças e adolescentes com sua rotina de aulas online ou em férias escolares. Essa situação é nova para a grande maioria, pois estamos acostumados a fazer essas atividades fora. Assim, a importância da rotina em casa tem sido muito comentada como uma estratégia para lidar com a ansiedade.
Acordar nos horários costumeiros, se envolver com os afazeres domésticos, estudar, ler, fazer exercícios físicos, buscar atividades prazerosas durante esse período pode ajudar a combater a ansiedade. Técnicas de respiração e meditação também são muito favoráveis nesse momento.

É percebido ainda nas pessoas que estão preocupadas e que acham difícil controlar a situação, perguntas persistentemente aos familiares sobre seu estado de saúde, alertando-os sobre os graves perigos que correm toda vez que saem de casa.
Diante dessa situação, é possível identificar pensamentos que possam mudar essa preocupação?
A grande maioria da população está mais amedrontada e, de fato, devem prezar por sua saúde e dos seus familiares. Penso que o momento é de usarmos mais a racionalidade e fazer do medo nosso ‘aliado’ para nos proteger, por meio de atitudes de combate à doença e não paralisando nossa vida. Talvez, os destemidos estejam mais vulneráveis nesse momento, não tomando os devidos cuidados.
É importante fazermos nossa parte para diminuirmos a ideia de desproteção e fragilidade. Algumas perguntas podem ajudar na compreensão de nossas atitudes:
Como estou me protegendo?
Como estou protegendo minha família?
Quais são os reais riscos para me contaminar?

“Responder perguntas básicas pode ajudar
a tomar consciência e aliviar a preocupação”

Pensar constantemente na doença pode causar o aparecimento ou o aumento de sintomas que ampliem o mal-estar emocional do ser humano?
Sim, situações como essa que você cita pode potencializar sintomas como tristeza, desesperança, desânimo, estresse, agitação, entre outros, e também favorecer o aparecimento ou potencializar transtornos como: depressão, ansiedade, pânico e até mesmo o TOC [Transtorno Obsessivo Compulsivo]. Temos que dar a devida importância aos cuidados e a doença, mas sem que se torne o centro de nossas preocupações.

Procurar provas de realidade e dados confiáveis, conhecendo os fatos oferecidos pelos meios de comunicação oficiais e científicos e fugir de informações que não provenham dessas fontes, evitando informações e imagens é uma forma de ser cauteloso e prudente e de não se alarmar. Portanto, controlar o consumo de informações [com fontes confiáveis] é o caminho?
Sem dúvida é um dos caminhos. Aprenderemos muito com toda essa situação que estamos vivendo e uma das questões que vem sendo retomada é a confiança na Ciência como uma possibilidade para superação de crises e filtrar meios de comunicação não compromissados com seu público, que insistem em divulgar informações falsas e alarmar a população. Como já citei acima, excesso de informação faz mal. Devemos buscar fontes seguras, baseadas em dados científicos para nos mantermos bem informados e conscientes.

A recomendação para medidas de isolamento social é um cenário que pode levar o ser humano a sentir estresse, ansiedade, solidão, frustração, tédio e/ou irritação, juntamente com sentimentos de medo e desespero. Esses efeitos podem durar ou aparecer mesmo depois do confinamento?
Os estudos são muito recentes quanto ao comportamento humano após esse cenário, mas em países como a China, que já passaram por esse período, tiveram um alto índice de transtornos como ansiedade e depressão. A Revista Exame deste mês comenta sobre um número altíssimo de divórcios e violência doméstica durante o isolamento social.
Penso que os impactos serão importantes e podem sim perdurar após o término da pandemia, especialmente em função da economia e do provável número de desempregados que teremos em nosso país. Mas esses dados só serão estimados e confirmados mais para frente e levará um certo tempo.
Porém, em nossa prática clínica, temos notado um lado positivo dessa questão do isolamento social. Vemos hoje casais e famílias se unindo para solução de dificuldades, trabalhando e se esforçando como uma verdadeira equipe. Os pais mais atentos, mais próximos dos filhos, podendo orientar nas dificuldades.

“Enfim, teremos que lidar com situações difíceis,
mas também ressignificaremos muitos comportamentos”

O que fazer quando sentir medo e insegurança?
Penso que o momento é muito desafiador! O medo e a insegurança irão nos rondar por um tempo, mas precisamos acreditar na nossa capacidade de superação e resiliência. A crise pode nos trazer um propósito. Nos momentos de angústia, preocupação, medo e insegurança, devemos buscar em nossa memória momentos de superação, porque isto nos ajuda a recordar nossa capacidade de seguir em frente, de ficar bem e do entendimento que as crises passam e deixam em nós um grande aprendizado.

O coronavírus invadiu grupos de conversas familiares, profissionais e de amizades, nos quais são enviados áudios com os mais diversos boatos sobre a doença e também com fotos de supermercados que viralizam e que ridicularizam certos setores da população. Como evitar isso, sem magoar nenhum integrante do grupo?
Penso que o momento deve ser de maior leveza e otimismo. A grande maioria das pessoas estão perdidas e confusas com tanta informação e talvez tenham uma boa intenção ao repassar informações. Acredito que mudar o foco das informações ruins para informações leves e verdadeiras pode ser uma boa maneira de lidar com essa situação.

Diante da pandemia da Covid-19, o CFP [Conselho Federal de Psicologia] reforça que constitui possibilidade de exercício profissional a atuação em emergências e desastres, em contextos clínicos, de assistência social e de políticas públicas. Nesse sentido, as profissionais da Clínica Bem-Estar estão atendendo seus pacientes. Se sim, por qual meio está sendo feito: pessoalmente ou via tecnologia?
Sim, estamos atendendo de acordo com a resolução que regulamenta os serviços psicológicos prestados por meio de tecnologia. Baseadas nisso estamos atendendo online por meio de plataformas seguras, procurando seguir as orientações do nosso Conselho, mantendo o profissionalismo, embasamento teórico e ética em nossos atendimentos.
Assim como, nosso compromisso com a comunidade. Portanto, temos feito vídeos informativos em redes sociais e estamos organizando outros com intuito de colaborar ainda mais com a população.

Com quais ações os psicólogos devem contribuir com a comunidade?
Somos profissionais da saúde e temos um papel muito importante na sociedade. Nesse momento de incertezas e isolamento social, nosso papel é de cuidar das pessoas que apresentam algum sofrimento psíquico e ajudar a lidar da melhor forma possível. Vemos um movimento muito forte de psicólogos buscando ajudar por meio de redes sociais com lives, vídeos informativos e até plataformas de atendimento gratuito.
Além de psicólogos trabalhando em hospitais e postos de saúde há também uma campanha do Ministério da Saúde para psicólogos se cadastrarem e, se necessário, auxiliarem a população.

“Buscamos a saúde emocional das pessoas e temos muito a contribuir
para que consigamos juntos superar esse momento de sofrimento.
Acreditamos e lutamos pelo humano e sua capacidade de superação!”

Foto: Otávio Bueno

Flávia Lima Morgon – Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual.  Ministra palestras e cursos para pais e educadores. Formada pelo Programa Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas/Houston Gabeston Institute [Texas] e Taos Institute [Novo México].

 

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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