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Mogimiriana é premida pela TNT

faceeeMariana Tesch Morgon, 28, é Mestre em Roteiro pela Northwestern University [Illinois], com bolsa da Capes/Fulbright, programa que é realizado em cooperação com a Comissão para o Intercâmbio Educacional entre os Estados Unidos e o Brasil, desde 2015, e em Educação pela UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] – 2013, e é bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Audiovisual pela UnB [Universidade de Brasília] – 2011.

Com esse currículo, sagrou-se vencedora do Festival de Curtas da TNT, com o roteiro Disney, MG, que para a mogimiriana representa o reconhecimento de um trabalho por um grande canal e por profissionais consagrados do audiovisual brasileiro, além da possibilidade de realizar com a qualidade da TNT, um projeto pelo qual ela e a diretora Maria Vitória Canesin têm muito carinho.

Em 2015, com o roteiro Amém, ficou em segundo lugar no Concurso de Roteiros de Longa-Metragem de Ficção do Frapa [Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre], RS.

“Neste concurso, um dos prêmios para os três primeiros colocados foi uma consultoria com o cineasta uruguaio Pablo Stoll, diretor de Whiskey e 25 Watts. Essa consultoria aconteceu durante o Festival de Gramado [RS]. A consultoria foi maravilhosa e determinante para o desenvolvimento do roteiro”, conta ela.

A mogimiriana também é roteirista e dramaturga freelancer e professora de roteiro no InC [Instituto de Cinema] e no Latin American Film Institute, ambos na cidade de São Paulo. “Ministro aulas básicas e avançadas de roteiro nas duas escolas”, diz.

Confira a entrevista com a mogimiriana Mariana Tesch Morgon.

O que é um curta-metragem?

site02O curta-metragem é um formato que representa uma etapa importante na iniciação e formação profissional, um espaço valioso para inovação e para a experimentação de novas linguagens. No entanto, o público familiarizado com o curta-metragem ainda é bastante restrito e, talvez por isso, há um desinteresse comercial por esse formato, limitando todo seu potencial cultural.

Nesse sentido, vejo muito positivamente a aproximação da TV com o curta-metragem. É um caminho interessante para revigorar e, porque não, renovar a produção audiovisual brasileira como um todo, dando espaço para novos realizadores e um grande incentivo à formação de público para produções nacionais.

 Apesar de comumente estar à margem das possibilidades de mercado, o curta-metragem tem um potencial comercial e artístico importantíssimo para a cadeia produtiva audiovisual. Familiarizar o público de TV, muito mais diverso que o público ‘nichado’ de festivais de cinema, com o curta, pode gerar interesse e demanda. Além disso, levar o curta para a TV prolonga a vida da obra, que muitas vezes morre depois de um ano rodando festivais.

Existe a possibilidade de Disney, MG tornar-se um longa nacional ou internacional?

Não. Muita gente acredita que uma história é contada em um curta-metragem exatamente como se faz para um longa, mas de curta duração, e isso não é verdade. Esse conceito equivocado gera muito preconceito contra o curta-metragem, como se o produtor de curtas fosse profissionalmente frustrado ou tivesse optado pelo formato curto por não ser capaz de sustentar a história por mais tempo. É importante entender que o formato de curta tem um potencial narrativo muito diferente dos longa-metragens, justamente por durar menos. É muito mais possível explorar diferentes linguagens narrativas sem que haja perda de engajamento do público em um curta que em um longa. O Disney, MG foi escrito para o formato curto e assim deve permanecer.

Relate os trabalhos que tem na carreira?

Comecei a fazer curtas-metragens durante a graduação na UnB, há nove anos. Lá tive a oportunidade de trabalhar em diversos projetos de amigos, em diferentes funções, principalmente montagem.

Menarca foi o primeiro curta que roteirizei e dirigi, no terceiro ano da graduação, em 2009. O curta foi finalizado em 2010 e exibido em diversos festivais nacionais e na Argentina. Depois de Brasília, me mudei para o Rio de Janeiro e me dediquei ao mestrado em educação, e ainda que o cinema fizesse parte dos meus estudos, deixei a produção de lado.

Durante o mestrado em Chicago, de 2013 a 2015, trabalhei em alguns curtas em diferentes funções, dentre eles destaco o curta-metragem (in) Absentia, da diretora belga Gaetana Poponcini, exibido no Palm Springs Festival e no Clermont-Ferrand Festival, no qual assino a direção de fotografia.

Ainda em Chicago, escrevi e dirigi o curta A Vaca, selecionado para a Mostra do Filme Livre de 2015, com exibições em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. Durante o mestrado na Northwestern pude me aventurar pela escrita teatral. Em 2014, co-produzi um festival de peças curtas em Los Angeles, chamado Why Did You Sleep With So Many Human People [Por que você dormiu com tantas pessoas humanas], e escrevi e dirigi uma das peças do festival, chamada We do not Segregate [Nós não segregamos]).

Minhas peças curtas Act of Communion [Ato de Comunhão] e The Devil’s Tools [As Ferramentas do Diabo] receberam leituras no Piven Theatre e Masterclash, respectivamente.

Como surgiu a paixão pelo cinema?

Eu tenho uma imagem na cabeça de uma pilha de VHSs na estante da sala de casa em Mogi Mirim. Quando eu era pequena e meu pai ia pescar, minha mãe preenchia os finais de semana com um caminhão de filmes alugados. Eu tenho essa imagem na cabeça, dos filmes, um atrás do outro passando na TV, da minha mãe assistindo, e da pilha de VHSs diminuindo aos poucos.

Talvez a paixão pelo cinema tenha vindo daí. Talvez eu tenha fabricado essa memória e o interesse pelo cinema tenha aparecido um pouco mais tarde, durante a adolescência, quando comecei a me interessar por filmes alternativos dos anos 90 e 2000. Lembro de ir até a locadora e alugar vários de uma vez, tipo “leve 5, pague 4”. Gostava muito do processo todo: chegar na locadora, passear pelos corredores, olhar as capas dos filmes, ler a sinopse de alguns, conversar com os atendentes, explicar que tipo de filme eu queria, ouvir as indicações, ponderar, tirar um, pegar outro, deixar aquele outro para a próxima vez e voltar pra casa com as sacolinhas cheias.

Quais são seus projetos futuros?

Atualmente, meu curta Disney, MG, vencedor do Festival de Curtas TNT, está em fase de pré-produção e a filmagem deve acontecer até o final deste ano. Pretendo acompanhar o processo junto com a diretora do filme, Maria Vitória Canesin.

Meu roteiro de longa-metragem Amém é um dos finalistas do Guiões 2016, um festival de roteiro de língua portuguesa que acontece em Portugal no começo do ano que vem. Tenho trabalhado em um novo tratamento do roteiro e depois da cerimônia do Guiões, pretendo conversar com produtoras para pensarmos nos percursos possíveis para a realização do filme.

Ainda este ano ou no começo de 2017, começam as aulas do meu novo curso de roteiro avançado no Instituto de Cinema, o Quebrando as Regras, sobre a escrita de roteiros que fogem das convenções propostas pelos manuais de roteiros.

Além disso, estou escrevendo uma série de comédia-dramática, em parceria com o roteirista Lucas Zacarias, e um longa-metragem infanto-juvenil.

Quero também, em 2017, montar um curso gratuito para roteiristas adolescentes mulheres, inspirado pela iniciativa maravilhosa das roteiristas Eleonora Loner e María Elena Morán, que criaram a Oficina de Roteiro Audiovisual para Jovens Mulheres – Criativas, em Porto Alegre.

Como você avalia o nosso cinema nacional?

O cinema brasileiro vai muito bem. Temos aí dois filmes de grande repercussão nos últimos dois anos: Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert e Aquarius, de Kléber Mendonça Filho, que representam de forma magistral comportamentos muito reconhecíveis na nossa sociedade. Isso comprova que o cinema é uma importante ferramenta de transmissão de cultura de um país. Os filmes brasileiros feitos com fins de arrecadação de bilheteria também vão bem, estão conseguindo alcançar esse propósito. Uma pena que os filmes mais autorais não consigam chegar às grandes salas comerciais.

Como você analisa o nosso cinema nacional em comparação ao cinema mundial?

Eu costumo enxergar o cinema brasileiro em duas vertentes: uma vertente autoral, de cinema de festival, e uma vertente comercial, que consegue chegar às salas comerciais de exibição. Estas duas vertentes dificilmente se encontram no Brasil. É raro um filme autoral ter sucesso de público. A vertente comercial se esforça para construir uma indústria no Brasil no mesmo modelo estadunidense, para se tornar mais rentável. Para isso, utilizam de métodos narrativos muito semelhantes aos de Hollywood, mas aqui o fazemos com precisão ainda inferior. A vertente autoral é mais liberta desta obrigação e, na avaliação dos distribuidores, acaba perdendo valor comercial por isso. Aí só se torna acessível ao público através de festivais ou de cinemas alternativos. No sentido do cinema mundial não comercial, o nosso cinema tem qualidade equivalente. Temos uma forma de narrar muito particular, principalmente o cinema que se faz em Pernambuco nos últimos anos.

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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