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Não vejo a hora de chegar o ‘Dia das Crianças’

Quem nunca ouviu essa frase de alguma criança ansiosa demonstrando o desejo pela conquista de um objetivo? Mas o que tem de tão especial no ‘Dia das Crianças’?

Excluindo os interesses mercadológicos embutidos nessa data, escolhi esse tema para refletir sobre como as crianças gostariam de comemorar esse dia. Então, perguntei a várias delas e acreditem… a maioria não respondeu que gostaria de ganhar algo material ou pelo menos somente isso.

Vejam algumas respostas surpreendentes:

“Com todos os meus amigos, jogar bola, brincar de esconde-esconde, gato mia [ia precisar de um quarto escuro no clube]”.

“Gostaria de participar de uma oficina, competição de desenhos”.

“Sem ter que fazer lição, quero brincar e ir para Cachoeira Perdida de Minas”.

“Jogar vídeo game o dia todo”.

“Vou pedir R$ 50,00 pra comprar o que quiser no mercado”.

“Passar o dia brincando…brincando…brincando…, é bom para saúde, faz bem, jogar futebol e ganhar presentes”.

“Queria ir no cinema, passar para comprar um presente e depois sair para jantar”.

… e muitas outras respostas com o mesmo objetivo: brincar, estar junto, passear…

Assim, podemos refletir que apesar das crianças estarem imersas num contexto, onde o marketing das empresas passa a falsa impressão de que o melhor é o brinquedo mais moderno e com os mais avançados recursos eletrônicos, talvez não seja o que elas somente almejam.

Claro que possuir aquele brinquedo seria fantástico, mas é o que precisam?

É o que realmente desejam?

Frases que podem parecer clichês, mas o que vemos cada vez mais nos contextos familiares são trocas do tipo: “Já que não tenho tempo para estar junto e brincar, compro o brinquedo ou o jogo que ela me pede” ou melhor “jogos e brinquedos que elas me pedem”.

Poderíamos aqui abrir várias possibilidades de reflexão sobre diferentes temas, tais como: a valorização do ter e não do ser, o consumismo exagerado, a falta de tempo dos pais junto a seus filhos, e o uso excessivo de jogos eletrônicos. Mas quero novamente, aproveitando a data, destacar nesse artigo a importância do brincar, como um processo constituinte do desenvolvimento humano.

Vivemos numa época em que educadores e familiares se preocupam muito em desenvolver nas crianças precocemente algumas competências, como por exemplo, a leitura e escrita e, infelizmente, não valorizam como deveriam a brincadeira como possibilidade para o desenvolvimento de outras habilidades, sejam elas, físicas, cognitivas, emocionais e sociais.

Segundo Miranda e Diniz [2018], estudos neuropsicológicos identificaram que o brincar promove a liberação de fatores de crescimento no cérebro, em especial o brain–derived neurotrophic factor [BDNF], um importante modulador de crescimento neural e plasticidade, e de outros que auxiliam no combate a ansiedade e a depressão.

Desta forma, ao pensarmos nas funções do brincar, compreendemos que essa atividade possibilita o desenvolvimento de uma série de aspectos como: criatividade e imaginação, linguagem, habilidades sociais, desenvolvimento interpessoal, vínculos afetivos e seu fortalecimento, promoção do bem-estar emocional, da autoestima, da resiliência, coordenação motora, entre outros.

Ao brincar as crianças aprendem e desenvolvem habilidades para resolução de problemas, pois no mesmo contexto surgem inúmeros e diferentes comportamentos e, assim, precisam adequar ações e pensamentos já apreendidos ou desenvolver outros novos recursos.

Todavia, a brincadeira não é o único contexto em que as crianças podem aprender, mas é através do lúdico que elas aprendem melhor, e um dos motivos que justificam esse aprendizado é que o comportamento gerado nesse contexto, pode ser mais inovador que em outros ambientes também de aprendizagem.

Como já mencionado, brincar é um processo constituinte do desenvolvimento humano, no qual o indivíduo é apresentado ao novo, mostra motivação para criar e desenvolver-se com prazer.

Também observamos muitos pais, educadores e familiares hiperdimensionando os perigos e ameaças ambientais e sociais e, claro que, elas existem e é necessário um olhar mais cuidadoso, mas não podemos nos tornarmos superprotetores implacáveis, pois essa atitude pode prejudicar e limitar as oportunidades infantis, já que as crianças precisam de desafios e determinados riscos para aprenderem a lidar com eles.

Como terapeuta familiar, de crianças e adolescentes preciso destacar a relevância do brincar, promover a conscientização e a valorização dessa atividade em diferentes contextos em que as crianças estão presentes. É preciso criar espaços criativos, seguros e dedicar tempo ao lúdico.

Pais, professores e profissionais devem apoiar e expandir momentos de brincadeira, pois assim, estarão preservando a liberdade, a autonomia, a ludicidade e o aprendizado saudável para nossas crianças.

Então, não pense muito em como comemorar o ‘Dia das Crianças’, apenas brinque e deixe-as brincar! Pergunte a seus(as) filhos(as) como querem comemorar esse dia e você também pode se surpreender.

Desejo a todas minhas queridas e especiais crianças:

FELIZ E SAUDÁVEL DIA DAS CRIANCAS!  CELEBRE COM ALEGRIA!!!

Adriana Pereira Rosa Silva – Psicóloga Clínica, terapeuta infantil e familiar. É pós-graduada Psicopedagogia [Puccamp] e em Terapia Familiar e de Casal [Puc/SP] e ministra palestras e cursos para pais e educadores. Atualmente, cursando Neuropsicologia pelo HC.

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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