Quinta-feira , 14 Dezembro 2017
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O homem do saco

– Fica aí na rua que o Homem do Saco vai te pegar!

Era assim que minha mãe fazia, um certo terrorismo para que eu entrasse logo em casa para tomar banho e jantar.

Nunca tive medo do Homem do Saco e, sim, muita curiosidade em saber como ele era, como é que as crianças ficavam dentro do saco, onde ele as levava. O Homem do Saco poderia nos submeter a cruéis castigos insanos como por exemplo, nos forçar a comer quiabo, ou então algo mais tenebroso, nos cozinhando num caldeirão fervendo como faziam as bruxas.

Para as outras crianças, o medo do Homem do Saco imperava naquele mundo infantil cheio de mistérios e fantasias e o melhor a fazer era obedecer aos pais, não teimar em ficar brincando por muito tempo na rua depois que éramos chamados, até porque se o Homem do Saco não aparecesse, com certeza o chinelo da mãe apareceria.

Certa tarde eu estava brincando sozinho na calçada, aproveitando a água que descia junto ao meio fio, construía uma represa com paus e tijolos velhos. Quando olhei para baixo, subia um homem alto, com chapéu engraçado, andar lento, que não tirava os olhos de mim. Meu desespero começou quando observei que segurava um saco enorme nas costas que sacolejava para lá e para cá.

Em pânico, minhas perninhas tremiam e com muita dificuldade consegui ficar em pé. O Homem do Saco se aproximou, sempre me olhando sem parar, consegui dar uns passos para trás e fiquei próximo ao portão de casa. Porém, mesmo com as pernas bambas, não queria gritar chamando minha mãe, pelo contrário, havia curiosidade em saber o que ele faria e como eu iria caber naquele saco que devia estar repleto de crianças.

– Sua mãe está aí?

Ao perguntar isso, tive certeza que minha hora havia chegado, mas decidi juntar forças e lutar, principalmente porque um instinto heroico tomou conta de mim e iria acabar com aquela história de Homem do Saco. Então xinguei da maneira mais vil e ofensiva já existente para uma criança:

– Bobão! Feio! Cara de mamão! Boboooo!

Minha mãe ao ouvir tais ofensas saiu de casa e se deparou com o filho se preparando para o fatal pontapé na canela do tenebroso vilão que carregava um saco nas costas.

À tarde quando meu pai chegou, vieram conversar comigo e explicar que não podia xingar as pessoas simplesmente por estarem carregando um saco nas costas e que o Homem do Saco não existia de verdade.

E minha mãe não ficou chateada por eu ter me assustado com o Homem do Saco e, sim, porque teve que pedir desculpas ao humilde pedinte que só queria um copo d’água.

Sobre Rodrigo Alves de Carvalho

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Escreveu para jornais de Jacutinga, Itapira, SP; Mogi Mirim, SP; Pouso Alegre, MG; Ouro Fino, MG; Espirito Santo do Pinhal, SP; Campinas, SP e Belo Horizonte, MG.

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