Quinta-feira , 21 Setembro 2017
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O pequeno entortador de colheres

No interior do Ceará, numa das regiões mais secas do Nordeste vivia o pequeno Ariovaldo de onze anos.

Era final da década de setenta e a seca daquele ano fazia com que praticamente nada brotasse, nada crescesse, nada vingasse. Os sertanejos passavam fome, não tinham com o que se alimentarem. O sol castigava a terra, castigava os animais e castigava os homens.

Ariovaldo e sua família se viravam como podiam, comiam o que aparecesse, chegando ao ponto de caçarem calangos e até camundongos para sobreviverem.

De tempos em tempos o pai de Ariovaldo ia para o arraial em busca de alguma oportunidade de ganhar um dinheirinho para se manterem alimentados, seja por algum bico ou até mesmo esmolas.

Foi numa dessas idas ao arraial que Ariovaldo assistiu compenetrado em uma antiga televisão no armazém de seu Raimundo a apresentação do paranormal Uri Geller, que ficou famoso por entortar colheres com seus poderes telepáticos.

Ariovaldo voltou para a roça ciente de que também conseguiria entortar colheres e isso seria a solução para a falta de dinheiro, já que poderia se apresentar em São Paulo e ficar conhecido e rico.

O pequeno Ariovaldo então pegou uma colher de sua mãe e ficou fazendo força com a mente para entorta-la. Arregalava os olhos, respirava fundo e gemia na esperança que a colher desse uma entortadinha.

Mas que nada, Ariovaldo fazia tanta força, mas o máximo que conseguia era soltar um pum. Entretanto, chegou um dia em que o cabo da colher foi amolecendo, amolecendo e entortou completamente.

Surpreso e eufórico, Ariovaldo reuniu a família e fez outra colher entortar na frente de todo mundo. Seu pai sorria com o dom divino do filho enquanto a mãe fazia o sinal da cruz achando se tratar de uma obra do Demo.

Pai e filho juntaram todas as colheres da casa e partiram para o arraial onde tentariam ganhar algum dinheiro com a habilidade de Ariovaldo.

Entre espanto, incredulidade e mais sinais da cruz das pessoas do arraial, Ariovaldo conseguiu ganhar algum dinheiro ao entortar todas as colheres. Á tarde foram ao armazém do seu Raimundo e puderam comprar depois de muito tempo legumes e carne seca. Naquela noite sua mãe preparou uma deliciosa sopa.  A mesa foi posta, mas quando foram tomar a sopa perceberam que não haviam colheres em casa. Ariovaldo havia entortado e quebrado todas…

E mais uma vez dormiram de barriga vazia sem ter como tomar a sopa.

Sobre Rodrigo Alves de Carvalho

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Escreveu para jornais de Jacutinga, Itapira, SP; Mogi Mirim, SP; Pouso Alegre, MG; Ouro Fino, MG; Espirito Santo do Pinhal, SP; Campinas, SP e Belo Horizonte, MG.

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