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O que vamos contar aos nossos netos sobre o ano de 2020?

Vivemos momentos difíceis de distanciamento social, saudade da família, dos amigos e da real percepção da fragilidade da vida

Lembro-me da época em que tivemos que ficar em casa devido a propagação de um vírus chamado Coronavírus. Uma pandemia mundial que tristemente fez muitas vítimas, principalmente idosos. Poucos podiam sair para trabalhar e se fossem, deveriam tomar precauções como usar máscaras para evitar a contaminação. As escolas, igrejas, bancos, lojas… tudo fechou.

Milhares de pessoas desempregadas, a desigualdade social se intensificou e se não bastasse haviam brigas políticas, interesses narcísicos e partidários que levaram a medidas governamentais sem planejamento adequado para evitar mais danos à saúde e na economia.

A Ciência e o Sistema Único de Saúde [SUS], assim como as aulas online, a dedicação dos profissionais da educação, da saúde e da linha de frente, a importância do autocuidado, a eficácia de um medicamento que cientificamente não era comprovado, foram temas destaques na mídia.

Vivemos momentos difíceis de distanciamento social, saudade da família, dos amigos, dos professores, medo do impacto econômico, da instabilidade emocional e a real percepção da fragilidade da vida.

– Nossa vovó! Que tristeza! Não tinha nada de legal?

– Hummm, deixe-me lembrar! Tinha sim… algo muito legal!

– Acho que uma das coisas mais legais que a vovó viu, além das muitas lives, dos cursos online, do aprendizado de diversos recursos tecnológicos, do resgate de brincadeiras, da importância da fé, da oração, da união familiar… foi o movimento de centenas de pessoas próximas querendo ajudar aqueles mais fragilizados emocionalmente, fisicamente ou socialmente.

– Então vovó… 2020 foi marcado na história pela triste pandemia da Covid-19, mas também como um ano onde a sensibilidade e a empatia fizeram a diferença na vida de muitas famílias. Micros movimentos sociais impediram uma tragédia ainda maior. A solidariedade se fez presente!

– Exatamente! Muitos entenderam o real significado da palavra solidariedade como sendo um compromisso, um ato de bondade e compreensão com o próximo. Um sentimento, uma atitude de interesse e propósito pela própria comunidade. Frases como: Juntos somos mais, não estamos sozinhos, #vamosajudar… tomaram conta das redes sociais e por mais que houvessem críticas de que muitos estavam praticando a demagogia, o que prevaleceu foi o sentimento real de cooperação mútua perante a vulnerabilidade social.

Gustavo Gutiérrez [2005], teórico e sacerdote, considerado por muitos como fundador da Teologia da Libertação, escreveu sobre solidariedade e destacou que o mais importante é colocar a vida em primeiro lugar. Ressaltou que há pelos menos três níveis de significados para o termo solidariedade.

O primeiro, a nível emocional é o que está relacionado ao sentimento de compaixão ou simpatia por aqueles que sofrem. O segundo, do ponto de vista moral, é o que procura transformar o sentimento em atitude expressa pelas palavras vínculo, reciprocidade, responsabilidade, compromisso, obrigação e cooperação. E o terceiro seria uma concepção jurídica, relacionada a mais remota etimologia da palavra solidariedade, que é mais do que um sentimento ou obrigação moral, ela é o que experimentamos quando percebemos em nossa identidade que o todo está na parte e a parte está no todo.

“Nessa concepção, ser solidário, não é uma opção nem sequer fruto da liberdade humana.
Assim, nossa existência depende das relações, dependemos um do outro e necessitamos
viver em comunidade, sendo solidários”  

Para o autor a solidariedade não precisa ser exposta em grandes obras, ela pode ser traduzida em atitudes pequenas como ser bom ouvinte, ajudar uma pessoa a atravessar a rua, oferecer uma carona ao vizinho, fazer compras, ceder lugar no metrô, separar os recicláveis… pequenas atitudes, mas grandes gestos que mudam a forma como vivemos e nos relacionamos em sociedade.

Exemplos de pessoas que fizeram a diferença na vida de muitos, por meio da empatia e solidariedade, não nos faltam. Falar apenas de algumas delas, pode até parecer injustiça, pois tenho certeza que cada leitor poderia citar pelo menos três almas verdadeiramente humanas: Irmã Dulce, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King, Zilda Arns, Padre Léo, Chico Xavier, João, Maria, José… muitos no anonimato, mas com a certeza de que boas ações torna o mundo um lugar melhor e mais agradável.

Deste modo, vamos aproveitar esse momento, rever nossos valores e atitudes, considerar que as iniciativas de solidariedade nos fazem sentir menos impotentes perante as mudanças a nível macro que nossa sociedade precisa. E como bem nos ensinou Madre Teresa de Calcutá compreender que nosso gesto pode ser apenas uma gota no oceano, mas sem ele o oceano será menor.

Tenho a expectativa que 2020 realmente seja lembrado como um ano desafiador, de perdas e lutos sim, mas também de muitas rupturas que fizeram do nosso país e do nosso planeta um lugar melhor para se viver. Assim compreendendo o verdadeiro sentido de que JUNTOS SOMOS MAIS!!

Desejo que possamos contar aos nossos netinhos que naquele ano o amor superou a dor.

Bibliografia
ALMEIDA. J.C. Teologia da Solidariedade: uma abordagem da obra de Gustavo Gutiérrez. São Paulo: Edições Loyola, 2005. 

Adriana Pereira Rosa Silva
Psicóloga Clínica, terapeuta infantil e familiar, pós-graduada pela PUCCAMP em Psicopedagogia, pós-graduada pela PUC/SP em Terapia Familiar e de Casal e graduada no curso de Neuropsicologia do Instituto de Neurologia do HC/USP.

Foto: Otávio Bueno
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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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