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Papel de pai e mãe na pós-modernidade

Esse artigo nasceu de um encontro com o amigo e psicólogo Dr. Cleber José Aló de Moraes, onde debatemos o tema: ‘Os desafios de ser mãe e pai na pós-modernidade’.

Primeiramente, considero importante esclarecer que chamamos de pós-modernidade o período final do século XX, por volta de 1980, onde tivemos a queda do Muro de Berlim, colapso da União Soviética, a crise ideológica nas sociedades orientais, o advento da pílula anticoncepcional – época que se iniciou um controle mais eficaz da natalidade –, assim como, a Revolução Industrial que permitiu o ingresso das mulheres no mercado de trabalho.

Fatos como esse criaram mudanças significativas em que ‘o certo e o errado’ passou a ser questionado e surgiu a liberdade de escolha. Também na família vivemos transformações importantes que ainda não foram finalizadas, uma vez que, o processo social nunca é linear, ou seja, abrange aos poucos todos os contextos.

Atualmente, vivenciamos diferentes configurações familiares, porém nesse artigo, me deterei a falar sobre os papéis de pai e mãe. Papéis esses que envolvem questões de ordem cultural, social, econômica, subjetiva e traz muitas vezes o modelo familiar vivenciado por cada um.

A maioria das mulheres na atualidade têm uma profissão e dividem as tarefas domésticas, bem como, o custo do orçamento familiar. Mesmo as que não trabalham fora, muitas vezes, optaram por isso. Diferente de como era antigamente, na qual, eram impedidas de pensar em outras possibilidades.

Há alguns anos, a mulher começou a adiar a maternidade com o objetivo de maior desenvolvimento profissional ou mesmo com o intuito de não assumir mais um papel social. Isso nos mostra que ser mãe não é mais condição fundamental.

Antigamente, era forte a crença que somente as mães eram capazes de cuidar dos filhos. Hoje, os homens desempenham o papel de cuidado de forma apropriada e com entusiasmo.

Segundo o Dr. Cleber, o exercício da paternidade também passou por uma alteração na vivência da masculinidade. Homens mais sensíveis às necessidades dos filhos, que conversam e interagem afetivamente e são mais capazes de aprofundar os vínculos com seus filhos e com a esposa.

Ele ressalta ainda que a imagem do pai que tínhamos no século passado era do homem forte, indestrutível, destemido e sempre seguro. O pai do presente tem a chance de ser companheiro da esposa e dos filhos, ser descontraído e alegre, mostrando aos filhos que viver vale a pena. O grande desafio da paternidade atual, é integrar a vida pessoal com a familiar e com o trabalho, sem deixar de cuidar de si mesmo e de suas emoções.

Na clínica observamos pais se sentindo muito culpados pelo fato de trabalharem fora e terem outros interesses. Geralmente, tanto a mãe como o pai, se esforçam com o objetivo de não deixarem os filhos sofrerem nenhum tipo de decepção ou frustração. A culpa e a auto cobrança colaboram para que os progenitores sintam muita angústia e se cobrem de forma demasiada. Ao contrário disso, identifica-se que essa nova configuração pode enriquecer a vivência da criança.

O fato de estabelecermos relações mais amorosas e democráticas com os filhos não significa que diminuiu a importância dos pais no processo educativo, onde os limites devem ser claros e nem sempre negociáveis.

Não tenho dúvidas que exercer a função materna e paterna é de fato um dos maiores desafios da atualidade e a maioria dos pais querem superar seu modelo de educação de origem, contudo, o filho não vem com manual e muitas vezes é preciso se informar, ler, conversar com parentes, amigos e até mesmo procurar um profissional.

Pensar sobre esse assunto, me lembrou o poema ‘Enjoadinho’ de Vinícius de Moraes que se mostra muito atual:

Filhos…. Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E entao começa
A aporrinhaçao:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Bibliografia
Borges, Maria Luiza. S. Borges. Função Materna e função paterna, suas vivências na atualidade. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia. 2005.
Cruz, Maria Helena M. Papai, Mamãe, Você … e Eu?: Conversações terapêuticas em famílias com crianças/Organizadora Helena Maffei Cruz – Casa do Psicólogo, 2000.
Moraes, Cleber José de Aló. [2017]. Tornando-se pai: narrativas de casais grávidos sobre a transição para a paternidade. Dissertação de doutorado, PUC-Campinas, Campinas. 2017.
Vasconcellos, Maria José Esteves. Pensamento Sistêmico: O novo paradigma da ciência-Campinas/SP: Papiros, 2002.

Ana Lúcia da Costa Rafael – Coordenadora, é Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual. Especialista em Psicologia Clínica pelo CRP/SP, pós-graduada pela PUC/SP em terapia familiar, casal e individual. Ministra palestras e cursos para pais, educadores e psicólogos. Articuladora da APTF [Associação Paulista de Terapia]. Formada pelo Programa Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas/Houston Galbeston Institute [Texas] e Taos Institute [Novo México].

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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