CidadeGeralSaúde

Pelo Mundo:  Argentinos ‘ficam em casa’ e país tem resultados notáveis contra coronavírus

Diante da pandemia do novo coronavírus, a Argentina vem adotando uma quarentena restritiva, com menos casos de contágios e de mortes; governo tem grande aprovação

Diferentemente do Brasil, em que muitos se colocam contrários à radicalização do isolamento social, na Argentina, o presidente Alberto Fernández fechou o país em modelo de lockdown e prorrogou as duras medidas até 10 maio de 2020.

A quarentena decretada em 20 de março, já apresenta resultados significativos para o país vizinho com 3.990 infectados e 197 mortes pela Covid-19. Os números são bem inferiores em comparação aos vizinhos, como por exemplo, o Brasil regista 66.896 casos positivos e 4.555 óbitos, ou seja, o número de brasileiros mortos é bem maior ao de argentinos infectados.

Fabíola Pereira cursa o 5º ano da Faculdade de Medicina / Foto: Arquivo Pessoal

“As medidas severas de isolamento na Argentina preocupam empresários e, também, entidades que representam trabalhadores. Entretanto, as ações do governo vão elevando a confiança popular acima do receio de um colapso econômico”, conta a estudante de Medicina, Fabíola Pereira, 42.

“Me sinto muito mais protegida aqui
do que se estivesse no Brasil”

A futura médica que é guaçuana conta que “moro na capital argentina e curso o 5º ano de Medicina na UBA [Universidade de Buenos Aires] e estou tendo todas as aulas teóricas via online. As práticas em hospitais, depois a universidade vai remanejar”.
Fabíola Pereira explica a seguir como os nossos ‘los hermanos’ argentinos estão enfrentando a pandemia.

Existe certo consenso sobre a necessidade das ações para a preservação das vidas de muitos argentinos que, compreendem, ser essencial em um futuro próximo, na retomada da economia,
quando a crise sanitária for superada?
Sim, há um consenso. Todos nós assustamos quando o governo anunciou o isolamento social obrigatório tão precoce, mas depois vimos que foi a melhor medida que ele tomou. Argentina é um caso único. Se dispôs a entrar em quarentena obrigatória quando apenas começaram os contágios.
Os primeiros casos foram notificados no dia 03 de março de 2020 e a primeira morte em 07 de março. Em 20 de março, o presidente Alberto Fernández anunciou a quarentena obrigatória que foi aplicada em todo o país e se estenderá agora até o dia 10 de maio. Segundo ele, haviam duas opções: cuidar da economia ou cuidar da vida.
“Eu elegi a vida”, disse o presidente. Outra de suas frases foi que “Deus estava dando uma oportunidade para que nos cuidássemos antes do caos”.
Mais de 90% da população está em casa, salvo as que tem que ir trabalhar, como pessoas da área da saúde, mercados e farmácias. Aqui, só se pode sair para necessidades básicas e, desde do dia 15 de abril, se estabeleceu o uso de máscara obrigatório para sair de casa. Equipes de policiais foram colocadas nas ruas e estão abordando as pessoas para saber o porquê de estarem fora de suas casas.
Para os que se acham ‘espertos’ e ‘desobedecem’, estão sendo punidos e processados.  Até agora, os resultados da contensão estão sendo satisfatórios. Hoje, dia 28 de abril, estão registrados 3.990 infectados e 197 mortes.

Foto: Arquivo Pessoal

 

“Foi aprovado pela maioria.
A popularidade de Alberto Fernández chegou a 80% depois dessa tomada de decisão”

Sobre o cenário vivido pelos argentinos e da avaliação das medidas adotadas, quais são os receios e expectativas em meio à pandemia no país que escolheu para viver?
Os receios como em todos os países em isolamento social, é a economia. A expectativa é que realmente achate a curva, já que não tem como garantir o não contagio e, com isso, o sistema de saúde não colapse.
Minha realidade vivendo aqui todos esses dias sem contato com ninguém, não está sendo nada fácil, ainda mais morando sozinha em um monoambiente. Estou aproveitando o tempo para organizar minhas coisas, estudar matérias atrasadas da faculdade e acompanhando as aulas virtuais.

“Mas como disse o presidente:
Uma economia que cai, sempre se recupera,
mas uma vida que se perde, não se recupera nunca mais”

A guaçuana parabeniza o governo argentino de se preocupar em salvar vidas / Foto: Arquivo Pessoal

O governo decretou medidas intensas de isolamento social. Como isso foi absorvido pelas pessoas?Tomou medidas bem duras. Tem até um disque denúncia anônimo para informar dos que estão violando a quarentena. Tiveram muitas denúncias porque sempre têm os que se acham espertos e impunes, como por exemplo, os que estão andando de carro sem permissão e os carros são guinchados e o proprietário responde a um processo penal. Táxis estão sendo parados e se as pessoas não tiverem permissão para saírem, estão sendo intimadas. Está sendo comum escutar pessoas, de suas janelas, gritarem para outras nas ruas: “Vai para a casa!” ou “Cadê a sua máscara?”.

A Argentina vai passar por isso como país referência: quarentena geral antes ‘do bicho pegar’, a exemplo de Portugal?
Espero que sim, que seja uma referência mundial. A Argentina fechou a vida social e implantou uma política estrita de ‘ficar em casa’ e, com isso, todos estamos nos sacrificando e vamos pagar um preço, seja econômico ou de outra forma de perda.
No meu caso, perdendo aulas práticas muito importantes no ciclo clínico da faculdade. Mas agora, não é hora de pensar no próprio umbigo com toda essa pandemia acontecendo no mundo. Eu só tenho que agradecer a essa medida precoce tomada pelo presidente argentino porque ele está preservando pela vida de todos aqui e é o meu legado como estudante de Medicina. “Todos vamos perder de alguma forma” disse ele.
Acredito que ainda tem muito pela frente, mas até o momento, o resultado tem sido satisfatório. Vale dizer que o isolamento social não vai evitar que haja novos caso aqui, mas que aumente poucos casos por dia.
A OMS [Organização Mundial da Saúde] demonstrou apoio a Argentina que tomou medidas de maneira ‘oportuna’ e ‘precoce’ e a escolheu como um dos 10 países, junto com a Noruega, Canadá, França, entre outros, que farão um ensaio clínico mundial para tentar curar a Covid-19.

“O objetivo maior é ganhar tempo para se preparar para um possível pico
e quem sabe neste tempo se descubra a cura”

A estudante comenta que os médicos argentinos preservaram mais vidas, do que viram morrer / Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

Como está o processo do novo coronavírus no momento dentro da Argentina [hospitais e demais áreas de saúde]?
Por enquanto, está tudo controlado. A quarentena achatou a curva de contágios, mas, como já disse, não vai reduzir o número de casos, porque ela ainda continua subindo, mas pouco. Isso favorece o ganho de tempo para que o sistema de saúde do país se prepare para o momento de pico.
Esse tempo é crucial para espaçar as internações, os casos críticos e também favorece para que se obtenha mais respiradores e camas, tempo de preparar os profissionais da saúde e os protocolos de atenção e, assim, evitar que o sistema de saúde se colapse.
Na verdade, estamos menos mal que os outros países, mas todos estamos mal porque estamos diante de uma pandemia.

Como estudante de Medicina como tem visto a situação do mundo inteiro contra o novo coronavírus?
Na forma de uma enfermidade que veio para mostrar que por mais que a Medicina esteja avançada, tivemos que nos curvar diante de algo invisível, um vírus. Que foi capaz de parar o mundo e veio para tirar todos da zona de conforto e para redefinir o significado da solidariedade.
Tiveram muitas mortes, mas acredito que esses mesmos médicos recuperaram mais vidas do que viram morrer. Por isso, todos os dias bato palmas para eles, porque poderia ser eu tendo que ir trabalhar para tentar proteger os que podem ficar em casa.

“Um vírus foi capaz de parar o mundo,
tirou todos da zona de conforto”

Foto: Arquivo Pessoal

No Brasil, a preocupação com a economia é central no enfrentamento da pandemia. Muitos se preocupam com os reflexos da quarentena nas projeções do mercado e também com o desemprego. Qual a sua opinião?
No Brasil, o governo escolheu cuidar da economia onde a crise é crônica. Não está nada preocupado com a saúde ou com a vida de alguém, infelizmente. Não estou muito informada sobre detalhes do que está acontecendo aí, mas acho que no final o Brasil terá os dois problemas: o econômico e o de saúde.

O fechamento das atividades é uma medida que funciona contra a epidemia, mas que, prejudica a economia. A Argentina está em recessão econômica em decorrência do novo coronavírus?
Com certeza está e muitos dos comércios nem abrirão suas portas porque já faliram. Mas como disse o governo, agora é hora de pensar na vida, na solidariedade e que todos vão sair perdendo economicamente. Isso já foi deixado bem claro. Depois vamos ver como vai se recuperar, ainda não se pronunciou nada sobre isso.

Para melhorar a situação, mesmo que aos poucos, qual a linha que o governo argentino pretende seguir para a retomada da economia?
Creio que a próxima etapa será uma quarentena mais flexibilizada, mas ainda assim, vai ser de suma importância o distanciamento social, sem aglomeração e o isolamento de pessoas grupo de risco. Se especula que tudo só voltará ao normal depois de outubro.
Ainda não sabemos o plano econômico que será adotado. Por agora, o que tem feito é ajudar as empresas a pagar os salários dos funcionários já que estas estão proibidas de demiti-los durante a quarentena.
Crê se também que com a saída da quarentena, as pessoas vão começar a circular e as que talvez tiveram o vírus de maneira assintomática ou com sintomas leves, que desenvolverão anticorpos e que circulem nas ruas e funcionem como uma barreira para novos contágios.

Para a estudante, o Brasil terá dois problemas ao final da Pandemia: o econômico e o de saúde / Foto: Arquivo Pessoal

 

“Vejo essa pandemia como uma guerra e quem está na linha de frente
são os médicos e todo pessoal da área da saúde, tentando salvar vidas”

Tags
Mostrar mais

Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close