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Pelo Mundo: Itália entra na ‘fase dois’ de abertura gradual das atividades

País iniciou reabertura de lojas em 14 de abril; no entanto, governo aplica medidas firmes e cautelares, porque a possibilidade de retorno do vírus não está excluída

Os casos do novo coronavírus pelo mundo somam 3,27 milhões de infectados e mais de 234 mil mortes.  A pandemia aprofunda crises políticas e econômicas em todo o planeta. Na Itália, os números totalizam 28.236 óbitos e 207.428 contágios.

“Atualmente, ainda temos mais de 101 mil pessoas positivas e 1,7 mil internadas em terapia intensiva. São números significativos, embora todos os parâmetros epidemiológicos estejam em queda”, explica Marcelo Teocchi.

Estudante de Medicina e Cirurgia na Universidade Sapienza de Roma, o guaçuano reside há cinco anos em Roma, Região de Lazio. No Brasil, ele obteve os títulos de Doutorado em Ciências, Área de Concentração: Saúde da Criança e do Adolescente e Pós-Doutorado em Saúde da Criança e do Adolescente [Imunologia] pela Unicamp [Universidade Estadual de Campinas].

“Concluí em fevereiro o último exame referente à parte teórica e, agora, em 30 de abril, a parte prática relacionada à habilitação da profissão, dividida em três áreas:  Médica, Cirúrgica e de Medicina de Família”.

O guaçuano finaliza o curso de Medicina e Cirurgia na Universidade Sapienza de Roma / Foto: Arquivo Pessoal

Na Itália, os estudantes fazem estágios supervisionados obrigatórios, cada um composto de 100 horas. “Esses estágios eram necessários para o ‘Esame di Stato’ [Exame Estadual], prova teórica que foi abolida em março devido a Covid-19 para que os médicos recém-formados pudessem atuar imediatamente”.

“Aqui, o curso de Medicina tem uma organização
muito diferente da qual conhecemos no Brasil”

Na tarde desta sexta-feira, 1º de maio, Marcelo Teocchi, conversou com O Polo para contar como está sendo o momento de retomada gradual da rotina da população na ‘Terra da Botinha’.

Itália e Covid-19?
Em janeiro, Marcelo Teocchi iniciou o estágio na área de Infectologia, época que ainda se tinham muitas dúvidas sobre o novo coronavírus. “Minha supervisora, médica infectologista, era sempre questionada. Apesar de preocupada, ressaltava que, com base nas informações oriundas da China, o novo coronavírus não parecia ser tão letal quanto os coronavírus causadores da Sars [Síndrome Respiratória Aguda Grave – 2002/2004] e da Mers [Síndrome Respiratória do Oriente Médio – 2012], que eram mais contagiosos.
Em questão de poucos dias o novo coronavírus se alastrou pelo país. Em março, o guaçuano começou o segundo estágio, junto a uma médica de família, que durou o mês inteiro. “Foi durante esse período que a Covid-19 foi classificada como pandêmica pela OMS [Organização Mundial da Saúde ] e a Itália foi obrigada a aderir ao lockdown devido ao número crescente de novos casos e, infelizmente, de internações e óbitos”.
Durante os dias que ‘assombraram’ a Itália, o estudante teve contato com os mais diferentes pacientes e viu a Medicina de Família ser transformada. “Barreiras burocráticas caíram a cada dia. Algumas receitas médicas que eram emitidas exclusivamente em papel, podiam ser encaminhadas por e-mail para os pacientes”.

“A telemedicina para as consultas médicas e o monitoramento dos pacientes
em quarentena ganhou rapidamente uma dimensão antes jamais obtida aqui”

Quais foram os piores e mais tristes dias da pandemia na Itália?
O final do mês de março foi o período mais triste. Quando de 662 óbitos do dia 26, passamos para 969 em 27 de março. A tristeza e muitas vezes o desespero, foram contagiantes. O dia 28 foi um sábado silencioso, em que a população aguardou ansiosa pelos dados da ‘Conferenza Stampa’ [Conferência de Imprensa]. Sempre às 18h, e por 53 dias consecutivos, todos os números da pandemia eram anunciados em rede nacional. Hoje, ela é feita em dias alternados, mas ainda é bastante aguardada.

Sentiu medo?
Não senti medo, mas ansiedade. No consultório, inúmeros pacientes relatavam ansiedade, insônia, pesadelos e eram receitados fitoterápicos e, para os casos mais graves, ansiolíticos.

A noção de morte passou pela sua cabeça, se porventura, viesse a infectar-se?
Não associei minha morte a Covid-19, talvez pelo fato de não pertencer ao grupo de risco, mas constantemente, me preocupei com o Brasil. Familiares, parentes, amigos e muitas pessoas que me são caras moram que aí.
Aos poucos, lendo algumas notícias, comecei a perceber que o Brasil começava a remar contra a maré em termos de prevenção, mesmo após algumas medidas concretas tomadas em março por muitos países. Também vi que a letalidade aí é diferente, com aparentemente mais jovens vitimados. E, isso, me preocupa bastante.

“No Brasil, a famosa curva está em ascensão exponencial e,
devido à defasagem em termos de testes diagnósticos e logística,
torna-se difícil prever quando o país  atingirá o pico e quão alto ele será”

Apesar dos avanços, o governo italiano está cauteloso porque o país ainda não saiu do tormento. Concorda com a manutenção das medidas de distanciamento social e outras que deram resultados concretos no combate ao vírus?
As medidas de distanciamento social devem ser mantidas. Elas foram fundamentais e ainda serão enquanto o vírus estiver em circulação. Sem um tratamento e uma vacina eficazes, o único modo de combater a doença é a prevenção: evitar o contágio. Infelizmente, o lockdown ocorreu muito tarde na Itália, quando já tínhamos em torno de 9 mil casos positivos e um total de 463 mortes, em 9 de março.
Contudo, a situação só não foi mais catastrófica porque a população em sua maioria respeitou as imposições governamentais, ainda que centenas de multas tenham sido aplicadas àqueles que não respeitaram o confinamento.

Como foram as duas primeiras semanas de reabertura parcial das lojas, mesmo não havendo modificações a respeito do confinamento, que seguirá em vigor até o dia 03 de maio?
Em geral, não houve mudanças significativas. Apenas alguns setores foram reabertos, como por exemplo, lojas para gestantes e bebês, papelarias e livrarias. A partir de 4 de maio, outros setores serão reabertos. Também poderemos novamente frequentar praças e parques abertos. Novas reaberturas e permissões para deslocamento estão previstas para os dias 18 de maio e 1º de junho.

“A volta à normalidade deve ser lenta e gradual
e, pessoalmente, considero um pouco precoce”

O que mais te chama atenção em meio a essa pandemia no povo italiano?
O povo italiano é forte e já passou por duras provas. Sabem ser otimistas e, para eles, a esperança significa força. Embora a Itália seja um país muito heterogêneo, noto grande união entre os italianos, especialmente em momentos críticos. Sabem relevar as diferenças em prol de um bem maior. Dignidade, educação e trabalho são conceitos muito arreigados na sociedade italiana.

Os amigos italianos Ega, Gabriella, Giorgio e Marcelo Teocchi / Foto: Arquivo Pessoal

Conviver com o vírus, em meio a ‘tragédia’ italiana, significa repensar a vida cada dia?
Certamente. Em março, por exemplo, durante o meu estágio em Medicina de Família, cada dia era marcado por várias novidades. Os softwares utilizados pelos médicos tinham atualizações quase diárias. Recebíamos novas instruções governamentais com muita frequência. A vida cotidiana foi completamente transformada: ir ao supermercado ainda demanda tempo e cuidados.
Vivemos muitas incertezas. Particularmente, não sei quando será a minha colação de grau e se deverá ser presencial ou online. Não sabemos quando serão realizados os exames para os cursos de especialização, que normalmente eram aplicados em julho.

Como o governo italiano e a área de saúde estão atuando no momento com os pacientes infectados pela Covid-19?
Desde o início, inúmeras medidas entraram em vigor, como a criação em março de uma força tarefa de médicos de toda a Itália enviados às regiões com os maiores problemas de saúde, a instalação de novos centros de atenção a Covid-19, como o Columbus aqui em Roma, até o uso compassivo de medicamentos, como recentemente, o sarilumab, um inibidor da interleucina [IL6] e a solnatida para o tratamento de edema de permeabilidade pulmonar em pacientes com insuficiência pulmonar aguda.
Inúmeros tratamentos estão sendo clinicamente testados. Além disso, o governo fez 22 mil admissões para o setor de saúde, adotando procedimentos extraordinários de contratação. Em seguida, aumentou de 5 mil para 8,4 mil os leitos de UTI’s [Unidade de Terapia Intensiva] e triplicou os leitos da área de pneumologia. E, até o momento, já foram feitos mais de 2 milhões de testes diagnósticos.

“Existem também programas educacionais
e apoio psicológico por telefone para a população”

E a sua rotina diária como está desde que iniciou o isolamento social na Itália em 09 de março de 2020?Não foi muito alterada, pois o curso sempre exigiu muitas horas de estudo e os estágios de habilitação na área da saúde não foram paralisados pelo governo. Eu tenho permissão para me deslocar até os locais de estágio e pude ‘viver’ uma Roma praticamente deserta, situação antes inimaginável. São imagens que ficarão por muito tempo em minha memória. Ainda assim, sinto falta de estudar nas bibliotecas da Universidade e de um ‘buon cappuccino preso al bar’.

Com a economia paralisada e os cidadãos confinados dentro de casa, na Itália o tema que domina é a suspensão do confinamento, entre a impaciência pela recuperação e o temor de uma segunda onda da pandemia. A pressão é grande para a retomada da terceira maior economia da Europa?
Existe muita pressão, mas o governo está aumentando os recursos para empresas e trabalhadores recorrendo à dívida pública. Grande parte da população está trabalhando em casa, mas muitos na Itália dependem do comércio tradicional e do turismo, gravemente prejudicados pela pandemia.
Há muita expectativa em relação ao verão, que aqui acontece entre junho e setembro, muito festejado pela população e que incrementa o comércio e o turismo, mas, não sabemos como os parâmetros epidemiológicos se comportarão na ‘fase 2’ e na retomada da normalidade.
Talvez o confinamento deixe de ser nacional e passe a ser regional, de acordo com um possível aumento do número de casos em regiões específicas.

‘Tudo ficará bem’ – É a frase que os italianos estão usando para dar força um ao outro nessa pandemia

Que medidas o governo italiano tomou para ajudar os trabalhadores durante o período de confinamento social que já dura seis semanas?
Um dos primeiros decretos publicados, denominado ‘#CuraItalia’, contém medidas para apoiar famílias, trabalhadores e empresas no combate aos efeitos da emergência da Covid-19 na economia. Contudo, as medidas são inúmeras e geralmente denominadas bônus. Algumas são federais/nacionais, como o já citado e, outras, regionais.
Aqui na Região de Lazio, temos o bonus tirocinanti, que prevê 600 euros para os estagiários que tiveram suas atividades interrompidas; o bonus colf-badanti de 300 a 600 euros para trabalhadores domésticos; bonus sicurezza rider de 200 euros para a compra de equipamentos de segurança pessoal; bonus disoccupati e sospesi dal lavoro de 600 euros; bonus connettività studenti de 250 euros para estudantes universitários na compra de computadores ou notebooks, tablets, entre outros.

“Existe também o bônus destinado para
o pagamento de alugueis e compras de alimentos”

E para o futuro, como o governo e população italianos têm em mente para sair dessa crise?
São praticamente duas crises: a sanitária e a econômica. Em teoria, a resolução da crise sanitária pressupõe a retomada do trabalho e gradualmente um melhoramento econômico. Contudo, a situação é muito mais complexa. Economicamente, a Itália já não apresentava um crescimento positivo, mas estável.
Agora, é provável que a Itália ‘encolha’, ou seja, apresente um crescimento econômico negativo e, isso, é preocupante. Importante será a ajuda da UE [União Europeia] por meio de um fundo monetário comum, mas outros países pertencentes ao bloco poderão ter impasses semelhantes e poderão precisar de ajuda.
Acredito que a resolução de ambas as crises esteja na colaboração, tanto científica quanto econômica. Essa concepção deverá ser global, fortalecida pela conscientização e colaboração da população.

Foto: Arquivo Pessoal

“O governo italiano tem buscado soluções e a população
tem colaborado porque vê atitudes, mas ambos estão cientes
do risco de um novo pico ou até mesmo de um novo lockdown. Seria uma segunda catástrofe!”

 

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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