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Pelo Mundo: “O fim do confinamento também coloca questões. Deve ser o mesmo para todos?”

Comissária de Bordo conta como os franceses estão vencendo a pandemia do novo coronavírus

Na segunda-feira, 13 de abril, o  presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou o fim progressivo do confinamento da população a partir de 11 de maio de 2020. A notícia surpreendeu toda a população francesa e os escalões do Estado. Na França, o novo coronavírus já causou 20.796 mortes e totaliza 117.324 casos positivos, colocando-a no espectro de países europeus mais atingidos, um pouco atrás da Itália e da Espanha.

“No entanto, o número de mortes em hospitais pela Covid-19 na última semana é o mais baixo desde 29 de março de 2020 e a quantidade de pessoas em terapia intensiva diminuiu, com 35 pacientes a menos, o que representa uma ligeira queda”, conta Simone Gonçalves, que há 13 anos reside em Paris.

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

E comenta que “a data de 11 de maio de maneira uniforme em todo o território não corresponde à dinâmica da epidemia, que não é igual nas diferentes regiões francesas”.

A guaçuana é comissária de bordo e trabalha na companhia aérea Air France. “A aviação foi um dos setores mais impactados pelo coronavírus no mundo inteiro. Praticamente todas as grandes empresas aéreas estão com a quase totalidade de suas aeronaves no chão”.


A Air France está com a atividade reduzida em 90%,
mantendo só alguns voos para as principais capitais do mundo

 

Simone Gonçalves relata em entrevista para O Polo que os franceses respeitam muito as regras e decretos do Governo Francês e da área de saúde para combater a pandemia e, mesmo assim, não livrou o país de um alto número de infectados e de mortes.

Quais foram as principais medidas impostas para frear o novo coronavírus?
Antes de tudo, o confinamento severo. Primeiro os restaurantes, bares e comércio, assim como, museus e lugares turísticos fecharam. Depois, com o isolamento social só podemos sair para ir ao supermercado, farmácia, resolver problemas administrativos, correr durante 1 hora e somente a uma distância de 1 km da residência e as fronteiras foram fechadas.
Precisamos fazer uma declaração para sair que o governo colocou à disposição para explicar por qual motivo saímos de casa. Os policiais foram mobilizados para controlar a população. A infração das regras leva a uma multa de 200 a 1,5 mil euros [equivalentes de R$ 1.154,00 a R$ 8.655,00] e até de prisão por seis meses.

Que contribuições foram dadas para ajudar neste longo período de confinamento?
O confinamento começou em 17 de março e prolongado até 11 de maio. Para isso, houve ajuda excepcional para os estudantes em dificuldade, simplificação e aumento da ajuda às empresas e independentes, atividade parcial prolongada, capacidade de testar todas as pessoas que apresentam sintomas e a doação de 10 mil aparelhos respiratórios suplementares.

Concorda com as medidas tomadas pelo Governo Francês?
Na minha opinião as medidas deveriam ter sido tomadas com antecedência maior do que foi feito. Sou a favor desse confinamento, pois além de protegermos nossas vidas, salvamos outras. Mas, aprendemos com os erros. Tudo o que faltava foi repensado e aplicado.

Você está trabalhando normalmente em viagens internacionais?
Sim. Meus principais voos são para o Brasil [São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza] e faço voos para os Estados Unidos e Canadá. A partir do momento em que a França tomou decisão em conjunto com a Europa de fechar as fronteiras, a atividade da Air France foi reduzida em 90% e a pedido do governo fizemos vários voos de repatriamento de franceses que estavam de férias ou a trabalho em diversos países do mundo. Ressalto a coragem dos meus colegas comissários que arriscando a vida aceitaram continuar fazendo esses voos para que as pessoas pudessem retornar à França.

A Air France adotou as medidas necessárias de proteção contra o vírus?
Desde o começo da pandemia. Essas medidas foram se intensificando e adaptadas com a progressão do vírus. Hoje, além do álcool em gel, o uso da máscara e luvas também são utilizados pelas tripulações durante todas as fases dos voos. O serviço de bordo dos voos foi adaptado para proteção dos passageiros e dos comissários, com o menor contato possível e sempre  tentando respeitar a distância de 1 metro. Mesmo com todas essas medidas o risco de contaminação é alto para a profissão.
Com a redução da atividade a maioria dos funcionários foi colocada em ‘chômage partiel’, um tipo de desemprego parcial em que recebemos 84% do nosso salário em negociação feita entre os sindicatos da categoria e a empresa. Ficaremos em casa com a possibilidade de ter um voo internacional no mês. Este recurso foi utilizado pela empresa sobretudo para evitar demissões. Ele será utilizado por seis meses a princípio.

Foto: Arquivo Pessoal

Os passageiros estrangeiros em geral, usam máscaras e respeitam as regras.
Mas os brasileiros no início da pandemia ainda estavam reticentes,porém,
foram mudando de opinião com o aumento de casos da Covid-19 pelo mundo

Você testou para o exame de novo coronavírus?
Não fiz o teste, porque ele está disponível somente para as pessoas que estão com os sintomas, hospitalizadas e para todos médicos, enfermeiros e pessoas que trabalham nos hospitais e asilos. Não apresento sintomas. Então, acredito que não haja necessidade de fazer o teste agora.

No momento, os hospitais ainda atendem muitos pacientes?
Sim. Os hospitais estão saturados e a parte leste da França que foi atingida pelo vírus primeiro teve que transferir vários pacientes porque não tinha leitos, equipamentos e materiais suficientes para acolher os doentes. Países vizinhos como a Alemanha e a Suíça ajudaram acolhendo alguns pacientes franceses. A transferência dessas pessoas para outros países ou entre regiões da França são feitas por helicópteros, trens, navios e aviões. Tudo readaptado com equipamentos médicos para transportar esses pacientes que estão entubados e com a forma grave do vírus.

Como está a sua rotina diária desde que iniciou o isolamento social em Paris?
O isolamento social não é fácil, mas sou católica e as orações da Igreja dão o ritmo aos meus dias. A fé é essencial na minha vida para atravessar esse momento tão difícil. Me ocupo também com a organização da casa, livros, filmes, séries e pelos meios de comunicação falo com a família e amigos. Faço exercícios físicos todos os dias, pois me ajuda a manter o bom humor e cuidar da saúde. Gosto muito de cozinhar e procuro fazer receitas novas.

Foto: Arquivo Pessoal
Foto: Arquivo Pessoal

E do povo francês em geral como tem sido?
Os franceses estão respeitando o confinamento muito bem no geral. A solidariedade está em primeiro lugar. Os mais jovens que não estão trabalhando e nem estudando vão fazer compras para os idosos por exemplo.
Há aplausos todos os dias às 20h para agradecer aos médicos, enfermeiros, cuidadores e todos que continuam trabalhando para salvar vidas e para que todos possam continuar em casa. As pessoas estão unidas para lutar contra esse vírus.

Muitos franceses tocam instrumentos de suas varandas,
cantam e dão força uns aos outros. Por outro lado, infelizmente, a violência doméstica também aumentou

 

Tem algum familiar ou amigo infectado pela doença?
Alguns de meus amigos de trabalho foram infectados, nenhum desenvolveu a forma grave e nem precisou ser hospitalizado, mas, os sintomas variam de pessoa para pessoa. Foram acompanhados por médicos generalistas. Depois de 15 dias começaram a sentir melhora bem devagar. Levou mesmo um mês para restabelecerem a saúde.

Como o coronavírus está interferindo na economia da França?
Economicamente é uma catástrofe, mas não existe um país melhor que o outro na Europa. Todos estão na mesma crise. As grandes empresas tiveram perdas enormes e as pequenas igualmente. Porém, o governo garante que não importa o tamanho, nenhuma empresa vai falir.

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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