ColunistasComportamentoGeral

Por que muitos idosos foram para as ruas?

O comportamento dos idosos na pandemia do coronavírus nos obriga a pensar na própria vida, comportamento e no legado que queremos deixar. Refletir e escrever sobre o tema com a psicóloga Dra. Denise Stort, doutora em Gerontologia foi muito prazeroso.

Conversar com o leitor sobre a atitude de muitos idosos que estão saindo às ruas, mesmo com a recomendação clara para  ficarem resguardados em casa é desafiador. Desencadeou inúmeras perguntas como:

A maioria dos idosos são teimosos?
A teimosia pode ser a negação de que estão envelhecendo?
Resistem pensar na Covid-19 em 2020?
Estão determinados a fazerem somente o que tem vontade?
Simplesmente continuam fazendo de acordo com suas crenças já enraizadas?
Ansiedade muito alta e dificuldade para ficarem sozinhos?

É fato que a orientação aos familiares, para protegerem seus idosos, foi que mantivessem o distanciamento social e que os mesmos permanecessem em casa, com seus afazeres diários tão importantes e cruciais. Isso provavelmente causou desconforto, angústia, ansiedade, medo e preocupação, uma vez que se viram longe de netos, dos entes queridos, poucas obrigações e tarefas a serem cumpridas.

Ou seja, muito tempo livre e como a maioria não está conectada com o mundo virtual, assim como a geração mais jovem, se sentem mais sozinhos e até mesmo abandonados.

A partir de uma certa idade é comum as pessoas já se sentirem mais vulneráveis as doenças oportunistas e crônicas e, com a pandemia, causou muita ansiedade. A recomendação ‘Fique em Casa’ não foi agradável para ninguém, afinal, lutar contra um inimigo invisível mexeu com a fragilidade e a impotência de todos. A morte surgiu como possibilidade muito mais próxima, especialmente para os idosos e isso não pode ser minimizado.

Apareceram então, novas necessidades como: um cuidado maior consigo e com o próximo; trazer para mais perto a espiritualidade – muitas vezes escondida nas demandas diárias –; a união entre as pessoas de uma forma totalmente diferente e a importância da flexibilidade emocional. Chamamos de flexibilidade emocional a capacidade de adaptação a necessidade do momento, ser mais tolerante com as mudanças, pois momentos atípicos exigem pensamentos, ações e até mesmo sonhos diferentes.

Acreditamos que esse é o momento para pensarmos junto com nossos idosos sobre o legado que querem deixar, lembrá-los de tudo que já fizeram, viveram e o que ainda realizarão. Eles podem dar o exemplo de força e determinação mesmo estando em casa, bem como compartilhar sua experiência e sabedoria.

Em situações como essa, é importante que as pessoas sintam que podem fazer algo significativo, mesmo que pareça pouco. O que parece pouco pode ser muito e, talvez, o mais importante.

Quem não gosta de uma palavra amiga ou um gesto de amor?
Quem não gosta de saber que seu pai/mãe, vô/vó está protegido em casa?
Qual idoso não quer ouvir que ele é muito importante para a família?

Portanto, desenvolver hobbies ou habilidades novas aos setenta/oitenta pode ser muito bacana!

Outro fato que gostaríamos de abordar é a filantropia, exercício de amor e generosidade ao próximo. Ao se aposentar e envelhecer podemos nos tornar um ser humano melhor. Ao cuidar do outro, sem descuidar de si próprio, passamos a dar importância ao que realmente vale a pena viver, como por exemplo, amar e ser amado, cuidar e receber cuidado, ser feliz, ver o outro feliz e fazer a diferença na vida das pessoas.

Nosso intuito não é dar receita, mas… colaborar com o leitor.
Novas ideias e propósito para sua própria vida e velhice… com propósito, apesar das perdas inerentes a ela.

Lembre-se que a flexibilidade emocional é algo a ser desenvolvido desde pequeno, fundamental para adaptar-se às mudanças impostas pela vida.

Precisamos aprender a viver e se manter bem apesar de tudo que possa nos acontecer. Isso é ser livre! Talvez seja a oportunidade de ajudar nossos idosos a se sentirem mais amados, apesar da pandemia e da distância.

Como?
Cada família conhece seus valores, hábitos, medos, inseguranças e potencias, com certeza irão descobrir possibilidades.

“A vida é um sistema instável, ao qual se perde e reconquista o equilíbrio a cada instante, a inércia é que é o sinônimo da morte, a lei da vida é mudar”
Simone de Beauvoir


Contem conosco!!!

Forte abraço,

Ana Lúcia, Denise Stort e toda equipe da Clínica Bem-Estar

Bibliografia
Arantes, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.
Barreto, Adalberto de Paula. Cuidando do cuidador: técnicas e vivências para o resgate da autoestima. Fortaleza: Gráfica LCR, 2017.
Gawande, Azul. Mortais: nós, a medicina e o que realmente importa no final. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

Ana Lúcia da Costa Rafael – Coordenadora, é Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual. Especialista em Psicologia Clínica pelo CRP/SP, pós-graduada pela PUC/SP em terapia familiar, casal e individual. Ministra palestras e cursos para pais, educadores e psicólogos. Articuladora da APTF [Associação Paulista de Terapia]. Formada pelo Programa Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas/Houston Galbeston Institute [Texas] e Taos Institute [Novo México].

 

 

 

 

Tags
Mostrar mais

Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close