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Por que os adolescentes se cortam?

São muitas as perguntas sobre esse comportamento. É uma tentativa de suicídio? Por que se machuca? Onde aprendeu isso? Esse comportamento é para chamar atenção?

A automutilação não é algo simples de entender, mas a informação e o esclarecimento podem ajudar muito na compreensão dessa prática, que infelizmente tem se tornado comum, principalmente entre adolescentes, embora aconteça também com adultos e crianças.

Em minha prática clínica, observo que esse comportamento autolesivo, na maioria das vezes, é um pedido de socorro que se manifesta de forma desajustada.  Se machucar e criar cicatrizes pode ser uma forma de ‘falar’ sobre os sentimentos. Quando um adolescente chega a se cortar, geralmente, foi a única forma encontrada para lidar e amenizar com uma dor emocional intensa que pode inclusive apontar para quadros de depressão, ansiedade e angústia.

Esse assunto é tão importante que está descrito no DSM-V [Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais] como ‘Autolesão Não Suicida’ e ocorre quando alguém danifica alguma parte do corpo intencionalmente, mas sem a intenção de se matar. Uma das formas mais comuns de autolesão é a mutilação de alguma parte do corpo, mas outras formas menos comuns incluem hematomas e queimaduras.

Qual a explicação para isso? Por que se aliviam quando se machucam?

Segundo Aratangy [2018], existe um mecanismo fisiológico curioso no sistema nervoso, onde uma dor inibe a outra. Quando vivenciamos a dor física, vários mecanismos neurais são ativados e ‘provocam’ uma sensação de relaxamento após o ato, por meio da liberação de substâncias como endorfina, por exemplo. Isso explica porque a autolesão momentaneamente ‘aliviaria’ a angústia, porém, é necessário compreender que essa não é uma alternativa eficaz, pois traz um alívio temporário e leva a um círculo vicioso que coloca a saúde e até mesmo a vida em perigo, pois em muitos casos os ferimentos chegam a ser muito graves.

Sabemos da existência de sites e páginas nas mídias sociais que estimulam esse tipo de prática. É muito importante para os adolescentes pertencer a um grupo e as comunidades existentes na internet podem oferecer essa sensação de pertencimento, assim como, encorajar e aumentar as chances de ocorrência desse comportamento.

É necessário se atentar ao tipo de acesso que o adolescente tem nas redes sociais e internet, bem como alguns sinais importantes:

Uso de roupas de manga comprida até mesmo no calor, pode ser uma forma de esconder as lesões;
Mudanças de humor e comportamento, como isolamento social;
Recusa a participar de atividades nas quais teria que usar bermuda ou camiseta;
Jovens com baixa autoestima e que trazem falas como vazio emocional;
Vítimas de bulling apresentam maior risco de autolesão.

O acolhimento, a proximidade, o diálogo e o acompanhamento profissional especializado são as melhores alternativas para lidar com esses casos. Acolher e escutar o que a pessoa sente sem julgamentos é fundamental. Afinal, o que parece pequeno para alguns pode ser fonte de muito sofrimento para outros.

Também é importante acreditar na capacidade de resiliência do ser humano, onde a superação de um problema nos faz mais fortes e capazes. As dificuldades fazem parte da vida, o que precisamos é ajudar esses jovens a encontrar formas mais leves, saudáveis e menos dolorosas para lidar com a angústia.

Bibliografia:
American Psychiatric Association. [2014] Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-V. 5ª ed. Porto Alegre: Artimed. Aratangy, Eduardo W. Como lidar com a automutilação: Guia Prático para familiares, professores e jovens que lidam com o problema da automutilação- 2ª edição/ ed. São Paulo: Hogrefe, 2018.

Flávia A. Lima – Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual.  É coordenadora de grupo de apoio para religiosos. Ministra palestras e cursos para pais e educadores. Formada pelo Programa Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas/Houston Galbeston Institute [Texas] e Taos Institute [Novo México].

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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