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Sobre incerteza, convenções, contradições e ilusões: há uma ponte para o futuro?

Um dos maiores economistas de todos os tempos, o britânico John Maynard Keynes, enfatizava o papel central da incerteza na compreensão da dinâmica econômica. Segundo ele, dado o caráter de instabilidade estrutural do capitalismo, os agentes tenderiam a adotar regras e padrões de comportamento com o intuito de reduzir tal incerteza. Essas regras e padrões de comportamento dariam origens a convenções sociais que confeririam maior estabilidade ao sistema.

Em uma passagem clássica, Keynes ilustra tal fenômeno ao analisar o comportamento dos jurados de um concurso de beleza. Conforme destaca, em geral os jurados não votam na candidata que acreditam ser a mais bonita e, sim, na candidata que imaginam que a maioria dos outros jurados acreditam ser a mais bonita.

Fenômeno semelhante ocorre na economia: como trabalhadores, empresários, consumidores, etc, tem dificuldade de prever o futuro, tendem a se comportar de maneira a seguir os caminhos que acreditam que a maioria dos agentes estão trilhando. Ou seja, escolhem a tal da convenção, a qual se materializa no comportamento de manada.

É exatamente neste contexto que se deve compreender o projeto econômico defendido pelo PMDB e materializado no documento ‘Uma Ponte para o Futuro’. Ao se analisar a dimensão econômica deste documento percebe-se claramente que este busca se justificar politicamente a partir da proposição de um conjunto de ações historicamente defendidas pelo mercado financeiro.

Nesta perspectiva, algumas leituras presentes na mídia sugerem que uma vez que este programa atende aos interesses da alta finança nacional e internacional, haveria uma grande dose de ‘boa vontade’ para com um futuro governo Temer. Neste cenário, teríamos a retomada de confiança e dos investimentos, os quais levariam a uma retomada do crescimento econômico.

Entretanto, como também lembra Keynes, o elemento central para que haja investimento privado é a perspectiva de lucros futuros, associada ao crescimento da demanda. Ou seja, mesmo que se observe certa dose de calmaria inicial por parte do mercado financeiro, essa tranquilidade teria um prazo de validade muito claro e muito curto, caso o setor empresarial não vislumbre possibilidades de aumento da demanda que viabilizem a retomada dos investimentos.

Neste ponto reside grande parte da contradição do documento ‘Uma Ponte para o Futuro’. Isso porque, o documento propõe um conjunto de ações, pouco debatidas na mídia, que tem sido repetidamente utilizadas [com grande grau de fracasso], como tentativas de recuperação de economias em crise em diversas partes do mundo, com especial destaque para a Europa.

Adicionalmente a aplicação de tais medidas invariavelmente tem sido responsáveis em inúmeros países [com destaque para os EUA neste quesito] por um substancial aumento da desigualdade e da pobreza, com sistemática redução dos investimentos públicos em educação, saúde e sistema de bem estar social, investimentos estes que estavam entre as principais reivindicações das gigantescas manifestações de julho de 2013.

Neste cenário, com tendência de reversão das políticas de redução da pobreza e de criação de um mercado de consumo de massas, é viável imaginar que os investimentos e o crescimento da economia brasileira retornariam de maneira quase que automática?

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Antônio Carlos Diegues

Antônio Carlos Diegues, 33, é Doutor em Economia pela Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] e Professor do Departamento de Economia da Ufscar [Universidade Federal de São Carlos]. Há dez anos é pesquisador e consultor do Bndes [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e Ipea [Instituto e Pesquisa Econômica Aplicada]. Também escreve artigos para os jornais de circulação nacional Folha de São Paulo e Valor Econômico, entre outros.

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