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Um gesto vale por mil palavras

Diz a sabedoria popular que um gesto vale por mil palavras, mas isto só tem valor, se o mesmo corresponder a uma verdade interior e não for mera encenação. Infelizmente, no contexto atual, muitos consideram que as palavras não contam, que são superficiais e/ou enganadoras.  No entanto, não podemos ter essa como verdade única, afinal  as palavras são o mais importante veículo de comunicação de troca entre humanos e podem marcar tão profunda e duradouramente uma relação, assim como um gesto.

“Como psicólogos, sempre destacamos a necessidade de tentar reconhecer e expor verbalmente nossas opiniões e sentimentos perante as pessoas com as quais estabelecemos relações, mas para isso temos que ter cuidado com as palavras mencionadas e a forma como fazemos”, explica Adriana Pereira Rosa Silva, 42.

Graduada em Psicologia na Unimep [Universidade Metodista de Piracicaba] e Psicopedagogia na Puccamp [Pontifícia Universidade Católica de Campinas], pós-graduanda do curso de Neuropsicologia do Instituto de Neurologia da USP [Universidade de São Paulo] e Especialista em Atendimento Familiar e de Casal – PUC/SP, comenta que é preciso parar, pensar e distinguir quais os sentimentos emergentes nessas relações e quais palavras realmente representam esses sentimentos.

“Assim, podemos nos proteger de confrontos e mágoas desnecessárias e sermos compreendidos. A palavra ‘mal dita’ pode sim, romper laços de amor, amizade e fraternidade e, ao contrário, abrir portas para novos e bons relacionamentos”.

Segundo ela, as palavras podem ser pontes e fazer com que os outros fiquem mais próximos, podem criar cumplicidades em vez de inimizades e podem produzir à nossa volta harmonia e alegria. “Pois aquilo que damos aos outros, nos é restituído sob a forma de felicidade e bem-estar”.

Falando da importância e o cuidado para o bom uso das palavras, a psicóloga destaca Rubem Alves – psicanalista, teólogo, escritor e poeta – que em algumas de suas frases nos faz refletir sobre a ressonância que as palavras podem evocar como: ‘as palavras só tem sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor’ ou ainda  ‘as palavras podem ser desatadoras de nós’.

“Então, é possível compreendermos a importância das palavras em nossas relações e a necessidade de pensarmos sobre em como dizê-las. Há palavras que junto das ações podem construir fortes vínculos”.

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A aparência, cultura literária e educação de cada um contam. No entanto, de que adianta tudo isto se, num mundo construído sobre interações sociais, você se comporta de forma grosseira, não sabe veicular afetos profundos e não sabe ouvir os outros?

“Com a mesma intensidade que as palavras são importantes, saber ouvir  também  é uma competência a ser melhor desenvolvida, especialmente numa geração em que tudo ocorre de forma muito rápida. É um grande desafio ouvir as pessoas, pois é uma forma de cuidado. Ouvir para compreender”.

A psicóloga diz que não podemos perder isso, porque uma boa escuta pode gerar muitas possibilidades de diálogo, de encontros e possibilidades de bons acordos. “Saber vincular afetos profundos e não se comportar de maneira grosseira é outro grande desafio, como já mencionado. É preciso resgatar alguns valores, bons modos de educação,  indispensáveis à boa convivência”.

Destaca ainda que os valores de boa convivência e educação se aplicam para o ambiente de trabalho.

“Precisamos compreender a importância de respeitar o espaço do outro – a sua privacidade –, mesmo quando este se configura num espaço coletivo. A velha reflexão: o que não quero para mim, não devo desejar ou fazer para o outro.

“Afinal, já diziam nossos avós: respeito é bom e todo mundo gosta”

Família
Neste cenário, quando a profissional se refere a educação, não está falando em termos de escolarização, mas como de atitudes e comportamentos. “Assim, pensar se nossas relações mais primordiais com a família e com os amigos beneficiam a vida social numa dimensão mais ampla, sem dúvida alguma, sim”.

Adriana Silva frisa sobre a importância da família repensar a transmissão de valores e quais as consideram indispensáveis a sua prole. “Ressalto a definição que conceitua valores como formas de interagir e conviver, porque o primeiro grupo social e o mais importante é a família. Saber ouvir, ser empático, respeitoso é algo a ser aprendido por nossas crianças”.

E que: “valores são expressões de harmonia social, é uma forma de amor e envolvimento que cabe a família estimular esse processo, pois esse é o tipo de Educação que compete aos pais ou seus responsáveis”.

Formas de interação quando bem-sucedidas, beneficiam o contexto social da criança e do adolescente, mas não significa que todos os relacionamentos terão ausência de conflitos. “Todo encontro em algum momento, supõem pontos de vistas divergentes, porém necessários, o que é diferente de situações de confrontos, onde o objetivo é obter vencedores, se caracterizando como uma disputa, que é quando uma ideia única deve prevalecer, desrespeitando a opinião do outro”.

Ela afirma que “é preciso ensinar isso às crianças, assim como, devemos ensinar dizer obrigado, desculpe, com licença, perdoe-me, entre outros termos de boa educação”.

Salienta que devemos dizer o que sentimos, pensamos e defender nossas ideias, mas com o cuidado de como dizer, ou seja, é preciso manter uma postura assertiva, que haja principalmente o respeito pelo ouvinte.

“Como já mencionado, comunicar-se de forma transparente envolve aprendizado. Não nascemos prontos. A boa comunicação se dá por meio de um processo que pode ser aprimorado no decorrer de nossa vida”.

Brasil
A educação tem tamanha relevância porque promove um novo paradigma de educação e intervenção social junto dos cidadãos, onde se deseja profissionais da área social cada vez mais qualificados e diferenciados.

“Sim, precisamos de profissionais capacitados tecnicamente, mas que possuam acima de tudo, valores humanos e éticos. Capazes de estar junto com seus colegas de trabalho, valorizando as diferentes manifestações de idéias, colaborando e tomando o cuidado para não perder o respeito um pelo outro”.

A competitividade existe, os seres humanos são ambiciosos e possuem desejos, mas isto não quer dizer que cada um deve ter conquistas de um jeito que contraria os princípios morais e éticos.

“O verdadeiro sucesso na carreira profissional está relacionado a uma postura ética, lidando com valores que permitem a uma conduta de vida. Quem deseja uma vida correta, precisa de valores e propósitos decentes, que são aprendidos a ‘priori’ a conquista profissional”.

A famosa pergunta ‘eu posso, mas eu devo?’ deve estar presente em nossas decisões e atitudes, assim como, as consequências. “Infelizmente no Brasil, temos muitos exemplos, especialmente no nosso Congresso Nacional, em que muitos governantes não servem de modelos identificatórios. Por isso, devemos valorizar uma cultura que ressalta o que está dando certo e destaca os bons exemplos. Esses devem ser a maioria”.

No momento, há diversos jovens bem preparados tecnicamente no mercado de trabalho e com ideias revolucionárias, entretanto, despreparados emocionalmente para lidar com situações de hierarquia, trabalho em equipe, colaboração, empatia, incapacidade para lidar com frustrações, imediatismo e muitas vezes são pouco gentis.

“Esses comportamentos podem, sem dúvida, acabar influenciando o sucesso profissional”.

Mídias sociais
Adriana Silva menciona que com o advento da tecnologia, além de todas as conquistas, descobertas e avanços, surgiram juntamente, muitas dúvidas e mitos. “Não podemos desconsiderar que o manejo das máquinas é realizado por pessoas, assim os ensinamentos devem ser os mesmos no contexto off ou online”.

Questionada se as pessoas esqueceram e/ou perderam o respeito pelo valor da educação por causa das mídias sociais, responde que “a tecnologia passou a fazer parte de todas as áreas da vida, seja ela familiar, conjugal ou profissional. Mesmo com toda modernização, o desenvolvimento do indivíduo necessita da convivência com o outro”.

Finalizando diz que é preciso ter cuidado ao culpabilizar um meio por consequências ruins de seu uso, porque as mídias pertencem a todos.

“As redes sociais configuram um lugar público, onde tudo parece ser possível e, assim, traz a ilusão de que não existem regras, quando na verdade, elas são as mesmas da vida não virtual, como também os próprios valores”.

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Flávio Ribeiro

Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Pucc - Campinas. Editor-Chefe e Repórter da Revista O Pólo - Agência ODBO, é o responsável pela checagem e produção das reportagens e artigos e, também, da edição final da revista. Exerceu a função de Assessor de Imprensa de Gestão Pública e trabalhou em meios de comunicação como o Jornal Gazeta Guaçuana, Jornal Cidade e estagiou na EPTV Campinas.

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