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Abuso sexual na infância e adolescência, é possível prevenir?

Estamos em abril de 2019 e os destaques nos noticiários e nas redes sociais nesses últimos três meses foram relacionados a tragédias, massacres e prisões. Todas muito tristes, porém, trouxeram importantes reflexões e debates sobre a necessidade de políticas públicas que desenvolvam ações mais efetivas a favor da prevenção, segurança, educação, saúde mental e proteção dentro da sociedade brasileira.

Poderia escolher qualquer uma dessas reportagens e discorrer sobre diversos aspectos importantes, mas vou me ater a uma notícia mais recente divulgada em 28 de março que representa um esforço contra crimes sexuais com menores. A operação nacional do combate a pedofilia e a pornografia infantil é a quarta fase da operação Luz na Infância, uma ação extremamente importante e necessária deflagrada pelo Ministério da Justiça junto com os policiais civis de 18 estados.

Outro episódio, também destaque na mídia e com o mesmo tema, foi o encontro no Vaticano com os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, realizado em fevereiro, sob o comando do Papa Francisco que participou ativamente das discussões e propostas de ação visando a proteção dos menores.  O resultado do encontro foi a elaboração de um documento com 21 propostas para combater a pedofilia dentro da Igreja Católica.

Vale a pena ressaltar o que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente no artigo 70: “É dever de todos prevenir a ocorrência ou ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente”.

Em mais de 30 anos de experiência, trabalhando efetivamente em diversas instituições e em consultório particular, nunca me deparei com um pedófilo que quisesse conter seus impulsos, mas atendi inúmeros adultos e jovens, vítimas de abuso na infância/adolescência e, que, não tiveram apoio familiar e/ou social para expor a violência sofrida.

Considero necessário relatar que somente até os seis anos a criança pode confundir fantasia com realidade e se estiver somente fantasiando também é preciso entender o motivo. A partir dos sete anos, a menos que criança ou adolescente tenha um problema mental/neurológico grave, não existe mais a confusão entre fantasia e realidade, sendo assim, é importante investigar quando demonstram algum incômodo em relação as pessoas mais velhas.

Infelizmente é impossível proteger integralmente os filhos e, desta forma, os pais podem e devem conversar com os mesmos sobre a importância de não deixar ninguém mexer no seu corpo e explicar que existem pessoas que tem comportamentos inadequados. Atualmente, temos livros e vídeos que abordam o tema, auxiliando na prevenção contra o abuso sexual na infância e adolescência.

Assim, precisamos nos unir enquanto famílias, profissionais, comunidades, instituições, poderes públicos e toda sociedade civil e lutar contra o ‘Abuso Sexual’ de nossas crianças e adolescentes, na grande maioria, praticados por pessoas pertencentes ao convívio social das vítimas. Dados do Ministério da Saúde, revelam que a maioria das ocorrências, acontecem dentro de casa e que os agressores são pessoas que mantinham vínculos afetivos com os menores. Os estudos mostram ainda que a maioria da violência é praticada mais de uma vez.

Vivemos numa sociedade em que muitas vezes há inversão de valores. É comum os acusados justificarem que a criança ou jovem provocou o abuso. Parece absurdo, mas temos visto diversos casos onde o abusador se coloca como vítima, alegando que foi provocado ou justifica que foi impulso momentâneo e que merece ser esquecido ou perdoado.

Concordo com a importância e o valor do perdão, entretanto, perdoar não significa negar ou negligenciar o delito. Se o abusador não sofrer nenhuma punição com intuito de provocar uma mudança de comportamento, fatalmente fará o mesmo com outras crianças e jovens e as estatísticas revelam isso.

Sabemos que a partir de uma denúncia, muitas outras podem surgir. O Ministério da Saúde ainda adverte, que apesar do aumento significativo de notificações de casos, acredita-se que há muitos não denunciados. E por quê?

É preciso pensar que muitas vezes as vítimas não relatam sobre a violência ou demoram muito para falar, porque na maioria dos casos, relatam medo de serem desacreditadas e/ou sofrerem punições. Outras, se sentem culpadas ou envergonhadas por estarem vivendo aquela situação, muitas são ameaçadas e manipuladas emocionalmente pelo abusador.

Também é comum os pais e/ou responsáveis se sentirem culpados achando que poderiam ter evitado o fato ocorrido, mas não podemos esquecer que o culpado é somente aquele que cometeu o delito.

Outros casos, também são omitidos por receio a exposição da criança ou adolescente e seus familiares, exposição que pode causar prejuízos sociais e emocionais. Ou ainda, quando os abusadores são pessoas do convívio familiar omitem a denúncia com receio da punição criminal.

A denúncia é extremamente necessária, para que os abusadores possam pagar pelo crime cometido, evitando que pratiquem o mesmo ato com outros menores, atitude esta que colabora inclusive para demonstrar a criança e/ou adolescente o valor da verdade e da justiça, assim como, a necessidade da consequência dos atos.

Portanto, precisamos ficar muito atentos aos sinais manifestados por nossas crianças e adolescentes que sofreram ou sofrem o abuso. Estudos relevam que alguns deles são mudanças no padrão de comportamento, então observá-las, dar a possibilidade da escuta, aproximar-se afetivamente de modo que possam compreender que não serão punidos pela revelação dos fatos.

Abuso sexual na infância e adolescência é muito grave e traz serias consequências na vida adulta. Por isto, não negligencie, denunciar pode impedir novas vítimas.

“Você nunca sabe que resultados virão com sua ação, mas se você não fizer nada, não existirão resultados” – Mahatma Gandhi

Ana Lúcia da Costa Rafael – Coordenadora, é Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual. Especialista em Psicologia Clínica pelo CRP/SP, pós-graduada pela PUC/SP em terapia familiar, casal e individual. Ministra palestras e cursos para pais, educadores e psicólogos. Articuladora da APTF [Associação Paulista de Terapia]. Formada pelo Programa Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas/Houston Galbeston Institute [Texas] e Taos Institute [Novo México].

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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