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Ciúme, uma forma de cuidado?

Se indagarmos as pessoas sobre a questão do ciúme, muitos dirão que senti-lo é uma contingência praticamente obrigatória de quem ama, afinal, muitos acreditam no mito de que se mede a ‘quantidade’ de amor de acordo com as manifestações ciumentas. Para outros, despertar o ciúme no parceiro é uma forma de alertá-lo para a possibilidade de perda.

Se procurarmos a etimologia da palavra ciúme, veremos que são muitas as definições como: ‘sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto, o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade; receio de perder alguma coisa; cuidado, zelo, [Aurélio, 2010].

Acho muito interessante essa última definição do sentimento ser associado a zelo, onde o autor menciona o ciúme como cuidado, de uma maneira diferente de pensarmos nesse sentimento tão intenso para muitas pessoas e lembro-me do ditado popular: “Quem ama cuida!” e, desta forma, reflito se essa expressão não poderia ter um significado que nos faça compreender o ciúme como algo mais ameno e menos ofensivo.

Muitos estudiosos do comportamento humano consideram que este sentimento é universal e inato, outros acreditam que é um fenômeno psicocultural, ou seja, está diretamente associado as nossas experiências e que sentimos quando nossa segurança afetiva é ameaçada.

Todos nós sentimos alguma forma de ciúme nas diversas fases de desenvolvimento da nossa vida e nos diversos tipos de relacionamentos pelos quais passamos e o que nos diferencia, é a forma como cada um vivencia, lida e cuida desse sentimento. Compreendo que, são muitas as variáveis e as manifestações do ciúme e que pode ir desde a associação ao zelo até algo psicopatológico.

No ciúme psicopatológico, há uma ameaça constante de traição, assim como, o desejo obsessivo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do outro. Na maioria das vezes, é um sentimento exagerado, sem motivo aparente, deixando a pessoa que se sente absolutamente insegura e com a fantasia de que o controle dele sobre a liberdade do outro pode amenizar a ideia de uma possível infidelidade. Nesse caso, há uma supervalorização de dúvidas, fantasias e pensamentos de desconfiança. O ciúme é intenso e torturante tanto para quem o sente como para quem lida com a pessoa ciumenta.

Nesse tipo de situação é muito importante a intervenção psicoterapêutica e, em casos mais extremos, até o uso de medicamentos, pois os tratamentos são fundamentais para se trabalhar questões ligadas ao aparecimento do ciúme, que podem envolver desde relações familiares complicadas, histórico de traição, insegurança e baixa autoestima. Os medicamentos auxiliam nos sintomas físicos, porque algumas pessoas podem desenvolver transtornos como ansiedade e depressão.

É preciso também observar como cada um vivencia o ciúme do outro, sendo muito comum vermos casais onde um cônjuge alimenta o ciúme do outro para se sentir amado e importante. Quando ouvimos casais, principalmente em psicoterapia, observamos que o ciúme para um dos pares é uma forma de controle e poder sobre o outro, onde acredita-se que essa é a única forma segura de relacionar.

Atualmente, temos outros fatores desencadeadores de muitos conflitos ligados ao ciúme que vem através da tecnologia por meio de redes sociais e aplicativos. Mas esse é um assunto tão amplo que pretendo refletir em outro artigo.

É importante refletirmos que: o que não é saudável para os relacionamentos é quando o ciúme se sobrepõe a felicidade, afinal, buscamos sempre alegria e bem-estar. O ciúme pode e deve ser encarado como cuidado e zelo e não como prova de amor.  Compreendo que respeito, carinho, atenção, companheirismo e confiança são ingredientes fundamentais para um relacionamento feliz e duradouro.

Termino com um trecho do nosso querido Vinícius de Moraes:
“De tudo, ao meu amor serei atento
 Antes, e com zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento”…
                                                      (Soneto da fidelidade)

Bibliografia:
Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Mini Aurélio: O dicionário da Língua Portuguesa/8ª edição – Curitiba: Positivo, 2010. Perel, Esther. Casos e casos: repensando a infidelidade/ tradução Débora Landsberg-1ª ed.-Rio de Janeiro: Objetiva,2018. Ferreira-Santos, Eduardo. Ciúme – o medo da perda – São Paulo. ed. Claridade 2011.

Flávia A. Lima – Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual.  É coordenadora de grupo de apoio para religiosos. Ministra palestras e cursos para pais e educadores. Formada pelo Programa Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas/Houston Gabeston Institute [Texas] e Taos Institute [Novo México].

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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