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Família e felicidade, existe receita?

A felicidade é algo desejado por todos, porém não deve ser sinônimo de desempenho extraordinário ou perfeição

Tenho estudado a temática felicidade, confesso que estou adorando e como uma experiente terapeuta familiar, aprecio essa combinação e acho que tem tudo a ver, família e felicidade. Vocês não acham?

A propósito, como você define família?

Existem diversas definições sobre família, gosto muito de como o Papa Francisco a define como sendo um grupo de pessoas, cheias de defeito que Deus reúne para que convivam com as diferenças, desenvolvam a tolerância, a caridade, o perdão, o respeito, a gratidão, a paciência, tenham direitos, deveres e limites…enfim, que aprendam a amar, sem exigir perfeição, pois, não nascemos onde merecemos, mas sim onde precisamos evoluir.

O termo felicidade foi descrito por diversos filósofos, poetas, escritores, como um sentimento definido de forma singular, com características particulares para cada ser humano. O que é realmente ser feliz para você? Quem é que não almeja felicidade?

No entanto, é preciso questionar por que falamos tanto em felicidade hoje e por que a temos como um ideal. Porém, ao mesmo tempo o consumo de remédios para dormir, depressão e ansiedade é assustador, inclusive em crianças e adolescentes?

Precisamos entender este cenário.

O que está acontecendo?

Uma pesquisa realizada em 2020 alertou que o consumo de antidepressivos aumentou 20% entre 2014 e 2018. De acordo com a OMS [Organização Mundial da Saúde], no mundo, os casos de depressão aumentaram mais de 18,4% nos últimos 10 anos. O Brasil é o país da América Latina com o maior número de pessoas ansiosas e estressadas.

Quem aqui não anda ansioso, preocupado, tenso, neste contexto de pandemia que estamos vivenciando? Estamos vivendo um período desafiador e saúde e felicidade nunca foram tão almejadas como no atual momento.

A felicidade é algo desejado por todos, porém não deve ser sinônimo de desempenho extraordinário e/ou perfeição. Acredito que uma das causas da dificuldade em sentir-se feliz é essa.

O que temos visto hoje são pessoas buscando perfeição. Consigo perceber isso na minha prática clínica, pais querendo transformar sua família em ‘Família Doriana’ e seguir um modelo ideal de família, desejando transformar a família em super família [super pai, super mãe, super filho, profissional exemplar, sendo sexualmente competente, ganhar muito dinheiro, trabalhando em média 16 horas por dia], ter boa forma física, estar antenado com as novas tecnologias, ou seja, temos um ideal de felicidade baseado em alto desempenho e produtividade.

É uma felicidade que busca perfeição, é um ideal que desta forma não será alcançado, pois não existem pessoas e muito menos famílias perfeitas. Ouvi uma frase que desconheço o autor que diz “Família perfeita é como montanha azul, só existe de longe”.

Mas se felicidade não acontece dessa forma, o que é então felicidade?

“Acredito que a felicidade não é um destino, e sim uma jornada de possibilidades,
construída a partir de nossas escolhas”

Precisamos nos ver como protagonistas neste processo, deixar de olhar para o que o outro pensa como felicidade e focar no que realmente acreditamos.

O que realmente gostamos?

É a consciência do que nos faz bem e a conexão com nossos valores como família que vão nos ajudar a encontrar o nosso caminho de felicidade.

Onde está o centro da minha felicidade e da minha família?

Minha família é meu andaime para buscar esse estado de felicidade. Eu preciso ter uma família feliz e isso não significa ausência de tristeza, pelo contrário, a tristeza pode ser vista como um degrau para a minha felicidade, uma vez que aprendo a lidar com minhas frustações, decepções e torno-me mais resiliente.

É preciso compreender que há coisas que não podemos mudar e outras que são possíveis. Faremos o que for possível, o que nos cabe e que está no nosso alcance: Qual nossa missão? Qual nossa obra? Nossos desafios?

Enquanto família temos que ter clareza do que podemos [enquanto pais] fazer para sermos felizes e as pessoas ao nosso redor também. O que estamos fazendo com nosso tempo? Estamos investindo no que realmente valorizamos? Quais são os valores que acreditamos?

Leandro Karnal traz uma reflexão importante: “Que os valores que nós queremos, não são dados pelo dinheiro, mas o que você faz com o tempo e com o dinheiro que você tem? Como aproveito meu tempo e o dinheiro?”.

Então o que é felicidade para você e sua família?

Felicidade é o que de fato você gosta, o que te agrada, o que você e sua família acreditam, por isso, é preciso quebrar a ideia da família ideal/Doriana. Felicidade é a crença que tenho na capacidade de criar minha vida que está ao meu redor.

Portanto, não há receita para a felicidade, penso que a receita está com você, como você quer usar seu tempo, seu dinheiro e quais são seus valores.

Convido cada família a olhar para suas necessidades, realidades, crenças, valores; a buscar respostas que combinem com o ‘jeito da sua família’, se organizando para aquilo que de fato é importante para cada um.

“A vida é um presente de Deus! Esteja ‘presente’ e usufrua do simples, pois a vida é feita de momentos e esses podem sim ser felizes”.

Sintam-se abraçados!

Referências
Achor, S O jeito Harvard de ser feliz: o curso mais concorrido da melhor universidade do mundo; tradução Cristina Yamagami. São Paulo: Saraiva, 2012.
Disponível:https://www.youtube.com/results?search_query=karnal+sobre+felicidade, Minha felicidade depende de mim, acesso em 01/05/2021.
Disponível: https://www.instagram.com/tv/COyrgr1JACB/ Live: Família, felicidade e muitas histórias para contar, acesso dia 06/05/2021.

Foto: Otávio Bueno


Patrícia Galo Psicóloga Clínica, Terapeuta Individual, Familiar e Casal. Especialista em Terapia Familiar e de Casal pela Unifesp [Universidade Federal de São Paulo], Especialista em Aconselhamento Cristão, Formação em Psicoterapia Breve pela Unicamp [Universidade Estadual de Campinas] e Pós-Graduada em Metodologia do Ensino Superior. Ministra palestras e cursos para pais, educadores e profissionais.

 

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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