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O que o retorno das aulas tem a ver com a história de Narciso, o coelho indeciso?

Escola e família precisam ser parceiras para ajudar nossas crianças e adolescentes, encorajando-as na superação de seus medos e inseguranças

Sou apaixonada por literatura infantil e sempre que possível, utilizo-a como recurso terapêutico em meus atendimentos com crianças, adolescentes e/ou famílias e, assim, que uma amiga sugeriu que eu escrevesse sobre a dificuldade das crianças e adolescentes voltarem para o cotidiano normal da escola, lembrei-me de Narciso, um coelho indeciso, história escrita por Luís Giffoni.

A narrativa é sobre um coelho, igual a tantos outros, que foi preso numa gaiola, quando ainda filhote. Um espaço pequeno, limitado e sem a oportunidade de experiências reais com a natureza. Desta forma, ele sonhava em poder voltar a saltitar pela grama, sentir de perto o cheiro das flores, desenvolver suas próprias habilidades para colher seus alimentos e viver aventuras pelo mundo afora com seus companheiros.

Até que um dia, sua velha gaiola já não mais resistiu as artimanhas do tempo e num leve movimento de Narciso, ela caiu e a tão sonhada porta se abriu, junto a chance de fuga e o sonho de liberdade tomou conta dele, mas o inesperado acontece.

O desejo de resgatar sua liberdade, de ter sua autonomia, de saltar e correr, de viver as aventuras com seus amigos parece possível de se concretizar, mas para sua surpresa Narciso sente medo, fica inseguro, parece estranho, encoraja-se e devagar avança em direção a grama, mas ao dar os primeiros saltos, sente um desconforto inacreditável, receia machucar-se, o cheiro parece forte demais, os outros animais não parecem tão amigáveis de perto, então, ele recua e agora o que fazer?

Narciso entrou em desespero, se viu confuso, esquisito, inseguro e com medo de viver essa nova realidade, tristemente decide permanecer na gaiola, mesmo com a porta aberta.

E agora?
O que fazer?
Isso pode acontecer conosco também?
Será que assim como o coelho, muitas de nossas crianças e adolescentes, após um ano e meio de pandemia, estão se sentindo?

Há relatos clínicos de que apesar do desejo, muitos adolescentes e até crianças resistem a ideia de voltar para as aulas presencias, tendo a opção do ensino a distância. Sabemos que muitos deles, principalmente, já tinham algum problema relacionado a timidez ou ansiedade e agora preferem não encarar essa ‘situação de perigo’.

Alguns especialistas nomeiam esse comportamento como ‘síndrome da gaiola’, fazendo uma associação aos animais que crescem em cativeiros e quando tem a oportunidade de saírem, continuam assim como Narciso. Temos a triste realidade do aumento de diagnósticos, nessa faixa etária, de transtornos psicológicos, como depressão ou TOC [Transtorno Obsessivo Compulsivo], que motivam ainda mais a permanência em casa, pois acreditam estar mais protegidos e seguros por estarem num ambiente com menos riscos.

Infelizmente no Brasil, é cada vez maior o número de adolescentes que estão apresentando transtornos de ansiedade. Uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria da USP [Universidade de São Paulo], realizada com quase 7 mil crianças e adolescentes com idade entre 5 e 17 anos, aponta que 26% deles apresentam sintomas clínicos de ansiedade e depressão.

Dessa forma, é preciso que a família e a escola estejam unidas, sejam parceiras para observar, identificar e descobrir recursos para ajudar no enfrentamento das dificuldades e se necessário, encaminhar para um profissional de saúde para avaliar e cuidar.

“Acolher e compreender essas dificuldades, faz parte 
de um processo de adaptação e precisa considerar a individualidade de cada um”

É necessário também que os educadores planejem atividades que estimulem as relações sociais, trazendo os alunos de volta para atividades cotidianas de forma saudável e menos sistemática. Mantenham os protocolos de segurança e peça colaboração para todos cumprirem também.

A prioridade, num primeiro momento, não deve ser o aspecto pedagógico, mas sim, o emocional e social, sendo preciso uma readaptação a muitas habilidades que deixaram de ser exercitadas, respeitando o limite de cada um. É preciso ainda a sensibilidade da escuta, do compartilhar experiências, do acolhimento e do afeto.

Escola e família precisam ser parceiras para ajudar nossas crianças e adolescentes, encorajando-as na superação de seus medos e inseguranças, deixando para trás suas supostas gaiolas e aventurando-se num universo de troca e convivência com seus pares.

Narciso não teve quem pudesse acolher, compreender e estimular a enfrentar seus desafios na realização de seus desejos e nossas crianças e adolescentes têm?

Conte comigo!
Grande abraço!

Bibliografia
*Impacto psicológico e fatores associados à pandemia do Covid-19 em uma amostra brasileira. Instituto de Psiquiatria da USP – IPQ

Foto: Otávio Bueno

Adriana Pereira Rosa Silva
Psicóloga Clínica, terapeuta infantil e familiar, pós-graduada pela PUCCAMP em Psicopedagogia, pós-graduada pela PUC/SP em Terapia Familiar e de Casal e Graduada no curso de Neuropsicologia do Instituto de Neurologia do HC/USP.

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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