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Responsabilidade social é algo a ser ensinado  para as nossas crianças e adolescentes

É possível cobrar algo que não foi ensinado?  Solidariedade e empatia são vocabulários conhecidos no contexto familiar? A família faz combinados?

Em junho deste mesmo ano, escrevi um artigo intitulado “O que vamos contar aos nossos netos sobre 2020?”. A temática ressaltava a importância de olharmos para os aspectos positivos emergentes da pandemia, apesar dos inúmeros problemas, perdas e tristeza também presentes nela. Destaquei o movimento de solidariedade como possibilidade de mudança social, mesmo que a nível micro, em busca de uma sociedade mais humana e empática.

Mas como desenvolver essa atitude ou seria um valor?

Foi essa resposta que o artigo não contemplou e que pretendo trazer nessa reflexão.

Recentemente numa live, destacamos a importância de ensinar colaboração e responsabilidade social para crianças e adolescentes. Afinal, qual pai ou mãe não reclamou dos filhos, justificando que não colaboram, não ajudam com as tarefas domésticas e não valorizam todo esforço dos mesmos.

Quem já não ouviu ou viveu algo assim: Por que eu? E ela, não vai fazer? Não fui eu quem sujei! Tudo eu nessa casa?

E aquela cena, depois que chegamos em casa, após um dia cansativo e ao solicitar algo, temos como resposta: Por que você não faz? Não está fazendo nada!

Haja paciência e encorajamento!

Mas por que se comportam assim?

Não precisamos refletir sobre isso?

Costumo perguntar aos familiares, se as atitudes cobradas de nossas crianças foram construídas. É possível cobrar algo que não foi ensinado?  Solidariedade e empatia são vocabulários conhecidos no contexto familiar? A família faz combinados?

Sabemos, por meio da proposta da Disciplina Positiva, que as crianças e os adolescentes cooperam mais quando podem expressar seus sentimentos e quando fazem parte do planejamento e das escolhas das tarefas cotidianas.

A etimologia da palavra colaborar vem do latim COLABORARE [co = junto + laborare = trabalhar]. Então, seria trabalhar junto / trabalhar com ajuda mútua.

Assim, a colaboração é uma atitude a ser construída junto, enfatizando e encorajando todos os envolvidos na capacidade de se superarem. Nas reuniões de famílias, uma outra prática da Disciplina Positiva, é pedir às crianças e adolescentes que elaborem uma lista de todas as tarefas que poderiam ser feitas por elas, conversar sobre cada uma, comparar as listas de cada integrante, definir quais cada um se responsabilizará e colocá-las sempre em pauta nas reuniões posteriores para conversar sobre a funcionalidade das mesmas.

Jane Nelsen [2015] em seu livro cita a ‘síndrome das três semanas’, um período em que os combinados se mantêm, mas depois enfraquecem, por isso há necessidade de um replanejamento e novas estratégias.

Precisamos desenvolver em nossas crianças e jovens um senso de responsabilidade e quando possuem a possibilidade de escolher sobre o que vão se responsabilizar parece que esse atingir a meta fica mais fácil. Mas afinal, o que responsabilidade e cooperação tem a ver com Responsabilidade Social e Solidariedade?

Gosto muito de uma história que já citei em uma outra live, que conta sobre um aluno que perguntou à antropóloga Margaret Mead o que ela considerava ser o primeiro sinal de civilização em uma cultura. O aluno esperava que a antropóloga falasse a respeito de anzóis, panelas de barro ou pedras de amolar, mas não! Mead disse que o primeiro sinal de civilização numa cultura antiga era a evidência de alguém com um fêmur [osso] quebrado e cicatrizado.

Mead explicou que no reino animal, se você quebrar a perna, morre. Você não pode correr do perigo, ir até o rio para beber água ou caçar. Você é carne fresca para os predadores.

“Nenhum animal sobrevive a uma perna quebrada por tempo suficiente para o osso sarar. Um fêmur quebrado que cicatrizou é evidência de que alguém empregou tempo para ficar com aquele que caiu, tratou da ferida, levou a pessoa à segurança e cuidou dela até que se recuperasse”

“Ajudar alguém durante a dificuldade é onde a civilização começa” disse Mead.

Civilização é ajuda comunitária, é responsabilidade social. Às vezes tenho a impressão que faltam modelos concretos para nossos filhos, exemplos! Será?

Alfred Adler, como um dos princípios básicos da sua teoria, destaca que ‘responsabilidade social’, significa ter real preocupação por uma pessoa e um desejo sincero de fazer uma contribuição para a sociedade.

Para Adler, o primeiro passo para ensinar responsabilidade social para as crianças é ensinar autoconfiança. Deixar as crianças fazerem por si só, ou seja, não fazer para criança o que elas podem fazer sozinhas. Quando exercemos o papel de supermãe, superpai, fazendo tudo por elas, adolescentes e crianças aprendem a esperar que o mundo as sirva e não elas sirvam o mundo. São essas crianças que acreditam que não é justo quando não conseguem as coisas do jeito delas.

Atitudes como respeito, empatia, solidariedade, cuidado com outro, escuta ativa são habilidades de convivência social e precisam ser ensinadas e a melhor forma de aprendizado é a prática no ambiente familiar, os pais precisam ser o melhor exemplo.

Crianças aprendem responsabilidade quando têm exemplos de responsabilidade. Quando compartilhamos tarefas dentro de casa ou na escola, aumentamos o senso de aceitação, ensinamos habilidades de vida e permitimos que desde pequenos as crianças experimentem a responsabilidade social.

Então, após um ano tão desafiador, além da pergunta “O que vamos contar aos nossos netos sobre o ano de 2020?” fica uma outra: O que vamos ensinar aos nossos netos sobre o ano de 2020?

Desejo que 2021 seja um ano de luz, saúde, alegria, conquistas, afeto, mudanças, empatia e solidariedade.

Bibliografia
NELSEN,J. Disciplina positiva [tradução Bernadette P. Rodrigues e Samantha Schreier Susyn). 3ª Ed. Barueri, SP: Manole, 2015.

Foto: Otávio Bueno

Adriana Pereira Rosa Silva CRP 06-76446 Psicóloga Clínica, terapeuta infantil e familiar, pós-graduada em Psicopedagogia [Puccamp], pós-graduada PUC/SP em Terapia Familiar e de Casal [Puc/SP] e graduanda no curso de Neuropsicologia do Instituto de Neurologia do HC/USP.  Ministra palestras e cursos para pais, educadores e psicólogos.

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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