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Será que desenvolvi TOC durante a pandemia?

A decisão em escrever esse artigo se deu por ouvir muitos comentários do tipo: “passo álcool em gel o tempo todo nas mãos, as vezes até sem necessidade!” ou “saio na rua e me sinto contaminada, tenho que tomar banho e trocar de roupa!”. Percebo as pessoas mais atentas ou preocupadas com comportamentos que se tornaram recorrentes durante a pandemia e a pergunta sempre é: “será que tenho TOC?”.

Atualmente, muitos podem estar se questionando sobre isso, mas para responder essa pergunta se faz necessário compreender o que é o TOC [Transtorno Obsessivo Compulsivo], assim como, suas manifestações.

O TOC é um distúrbio psiquiátrico de ansiedade descrito no DSMV-5 [Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais] e tem como principal característica a presença recorrente de obsessões e compulsões.

As obsessões são pensamentos, ideias e imagens que invadem a mente insistentemente e involuntariamente, com frequência e, involuntariamente, algo irracional mas para o portador desse transtorno incontrolável, e a única forma de aliviar esse pensamento é realizar um ritual. Um exemplo comum é o de contaminação das mãos, onde o indivíduo acredita que estão contaminadas com germes e bactérias e precisa lavá-las insistentemente e repetidas vezes, mesmo racionalmente sabendo que estão limpas.

Nesse caso, a ideia de contaminação vem como um pensamento insistente e obsessivo e a necessidade de lavar as mãos seria a compulsão. O comportamento compulsivo traz muitos prejuízos para o portador desse transtorno e existem casos de pessoas que ficam muitas horas do seu dia carecendo de manter esse ritual.

Geralmente, esses comportamentos se desenvolvem na área de limpeza, checagem ou conferência, contagem, organização, simetria, colecionismo, entre outros, mas o que de fato determina o TOC e sua gravidade são os danos que esses sintomas obsessivos/compulsivos trazem para o indivíduo.

Com o início da pandemia do novo coronavírus, a higienização das mãos e da casa foram redobradas. No entanto, é importante não caracterizar esses comportamentos como uma doença, desde que, sejam comportamentos que façam sentido e tragam proteção. Como disse acima, o TOC traz muitos prejuízos na rotina das pessoas, porque são pensamentos intrusivos que levam a disfuncionalidade.

O que vai caracterizar o transtorno, na maioria das vezes, não é a ação, mas a forma como ocorre, levando em consideração a frequência, necessidade de rituais, assim como, os pensamentos e compulsões sobre o ato. Se forem situações que levam o indivíduo a uma perda de funções e dificuldade de execução de outras tarefas, deve se considerar possibilidade do transtorno.

E, pensando em nossa pergunta inicial depois de ter compreendido brevemente o mecanismo do TOC, podemos avaliar alguns aspectos para respondê-la:

O comportamento inicial que preocupa é a repetição de hábitos de higiene para se proteger na pandemia ou esse pensamento se enquadra em uma obsessão?

Traz prejuízos e disfuncionalidade, ou seja, perde-se muitas horas do dia tendo que executar algum ritual para se sentir bem e protegido?

Esses pensamentos causam muita ansiedade, irritação, tristeza e apatia?

Caso se enquadre em sintomas de TOC procure ajuda de um médico ou psicólogo. Há tratamento com medicação e psicoterapia para portadores desse transtorno que apresentam significativa melhora do quadro, assim como, uma melhor qualidade de vida. Que possamos sempre lembrar da capacidade de superação do ser humano e para terminar gostaria de citar uma frase que gosto muito, de um autor desconhecido:

“Não há sensação melhor que a de superar um obstáculo
que pensávamos ser impossível e descobrir quanto somos fortes”

Bibliografia:
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais; DSM-5 5 Edição, Porto Alegre: Artmed,2016.
https://saude.ig.com.br/2020-07-19/toc-transtorno-aumenta-aparece-na-pandemia-coronavirus-especialista-explica.html.

Foto: Otávio Bueno

Flávia A. Lima – Psicóloga Clínica, terapeuta familiar, casal e individual.  É coordenadora de grupo de apoio para religiosos. Ministra palestras e cursos para pais e educadores. Formada pelo Programa Internacional em Práticas Colaborativas e Dialógicas/Houston Gabeston Institute [Texas] e Taos Institute [Novo México].

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Clínica Bem Estar

A clínica Bem-Estar existe há mais de 20 anos e foi idealizada pelas psicólogas Silvia Gonçalves Compri e Irmã Lais Soares. Atualmente, a equipe é composta por quatro profissionais: Ana Lúcia da Costa Rafael, Adriana Pereira Rosa Silva, Flávia Lima Morgon e Patricia Galo Firmino. As psicólogas atendem crianças, adolescentes e adultos em sessões individuais, familiar e de casal, trabalhando na abordagem sistêmica, acreditando numa mudança paradigmática, onde os processos relacionais assumem significativa importância nos atendimentos e na evolução das pessoas que as procuram. Também ministram palestras, cursos para pais, professores e profissionais da área. Desenvolvem projetos sociais, consultoria e supervisões clínicas. A equipe tem como meta tornar-se um centro de referência em atendimento e formação na área da Psicologia.

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