Tem algo mudando — e não é pouco. Quem circula por universidades, hospitais de ensino ou unidades básicas percebe rápido: a formação em saúde no Brasil está em ebulição. Não é só sobre novos cursos ou cargas horárias ajustadas.
É sobre gente. Gente jovem, inquieta, cheia de perguntas. Gente experiente, cansada de repetir fórmulas que já não funcionam tão bem. No meio disso tudo, surge uma pergunta que paira no ar: estamos formando profissionais para o mundo real ou para um mundo que já ficou para trás?
O novo perfil de quem escolhe trabalhar com saúde
Sabe de uma coisa? O estudante de saúde de hoje não é o mesmo de dez, vinte anos atrás. E isso não é crítica nem elogio automático — é constatação. Há mais consciência social, mais preocupação com qualidade de vida e, curiosamente, menos romantização do sofrimento.
Muitos entram na área movidos por propósito, sim, mas também querem equilíbrio. Querem aprender, crescer, ajudar. Só não aceitam mais a ideia de que cuidar do outro exige se anular completamente. Esse detalhe muda tudo: muda o jeito de ensinar, muda o jeito de avaliar, muda até o jeito de liderar equipes.
E aqui surge uma pequena contradição, que vou explicar melhor depois: ao mesmo tempo em que há mais sensibilidade emocional, cresce a busca por objetividade, evidência científica e prática bem feita. Emoção e técnica, lado a lado. Não é simples, mas é real.
Currículos mais vivos e menos engessados
Por muito tempo, a formação em saúde seguiu uma lógica quase industrial: disciplinas isoladas, conteúdos extensos, pouco diálogo entre teoria e prática. Hoje, isso começa a ranger.
Universidades públicas e privadas vêm revisando matrizes curriculares, incluindo:
- Maior carga de atividades práticas desde os primeiros períodos
- Integração entre disciplinas clínicas e sociais
- Discussões de casos reais, com erros, acertos e zonas cinzentas
Quer saber o que muda de verdade? O aluno passa a entender o porquê das coisas. Não decora protocolos como receitas de bolo. Aprende a pensar, a desconfiar, a perguntar “isso faz sentido aqui?”. E, honestamente, esse tipo de aprendizado cola muito mais.
Aprender junto virou regra, não exceção
A educação interprofissional deixou de ser conceito bonito em evento acadêmico. Está entrando, aos poucos, na rotina.
Estudantes de enfermagem, nutrição, medicina, fisioterapia, psicologia — todos aprendendo juntos em alguns momentos. Parece bagunça? Às vezes é. Mas é uma bagunça produtiva.
No SUS, ninguém trabalha sozinho. Então por que formar como se fosse? Essa lógica mais colaborativa aproxima a formação da vida real e ajuda a reduzir conflitos profissionais lá na frente. Menos disputa de território, mais foco no cuidado.
Tecnologia na formação: aliada, não salvadora
Sim, temos simulação realística, plataformas digitais, prontuários eletrônicos de treino, inteligência artificial sugerindo diagnósticos fictícios. Tudo isso existe e ajuda. Mas existe um certo exagero no discurso.
A tecnologia funciona melhor quando entra como apoio. Quando vira centro do processo, algo se perde. O olhar clínico, a escuta, o silêncio necessário numa consulta difícil — nada disso se aprende só com tela.
Ferramentas como o Telessaúde Brasil, ambientes virtuais como o Moodle e até apps de estudo colaborativo têm seu valor. Desde que alguém ensine quando usar… e quando desligar.
Saúde mental deixou de ser nota de rodapé
A formação em saúde sempre falou de sofrimento — do paciente. Agora, começa a olhar também para quem cuida.
Burnout, ansiedade, esgotamento emocional. Esses temas entraram no currículo, nos grupos de apoio, nas conversas de corredor. Ainda com resistência, é verdade. Mas entraram.
E aqui vai uma verdade meio desconfortável: formar bons profissionais passa por ensinar limites. Ensinar a pedir ajuda. Ensinar que errar dói, mas esconder o erro dói mais.
Interiorização: aprender fora dos grandes centros
Durante muito tempo, excelência em formação significava capital, hospital grande, tecnologia de ponta. Isso está mudando.
Programas de interiorização, estágios em municípios menores e parcerias com redes locais do SUS ampliaram o campo de aprendizagem. E ampliaram também o repertório humano.
Quem aprende saúde fora do eixo tradicional entende rápido que recurso é importante, mas vínculo resolve muita coisa. Resolve mais do que parece.
Residências e especializações: expectativas mais realistas
As residências seguem como espaço fundamental de amadurecimento profissional. Mas o discurso em torno delas mudou. Hoje se fala mais de condições de trabalho, preceptoria qualificada e perspectivas reais de carreira.
Não à toa, cresce o interesse por modelos mais bem estruturados, como as residências em saúde 2026, que vêm sendo discutidas como resposta a gargalos antigos de reconhecimento, incentivo e fixação de profissionais no SUS.
É menos glamour. Mais pé no chão. E, paradoxalmente, mais atraente.
O papel de quem ensina também está mudando
O docente em saúde já não é visto apenas como autoridade máxima. Ele é mediador, referência, alguém que caminha junto — mesmo quando sabe mais.
Isso exige preparo pedagógico, coisa que antes era quase ignorada. Hoje, cursos de formação docente, metodologias ativas e avaliação formativa entram no radar de quem ensina.
Dá trabalho? Dá. Mas melhora o vínculo e o aprendizado. E ninguém aprende bem em ambiente hostil, vamos combinar.
Avanços convivem com velhos problemas
Aqui está a contradição prometida lá atrás: enquanto a formação avança em sensibilidade, integração e propósito, ainda enfrenta precarização, excesso de carga horária e desigualdades regionais.
Os dois cenários coexistem. Às vezes, no mesmo campus.
Reconhecer isso evita ilusões. E ajuda a pensar soluções possíveis, não mágicas.
O que esperar dos próximos anos?
Tudo indica que a formação em saúde seguirá mais conectada à realidade social, ao SUS e às necessidades concretas da população. Menos palco, mais bastidor.
Mais escuta. Mais responsabilidade. E, com sorte, mais cuidado com quem cuida.
Formar profissionais de saúde é formar país
No fim das contas, falar de formação em saúde é falar de projeto coletivo. É decidir que tipo de cuidado queremos oferecer — e que tipo de profissional queremos ser.
Não é simples. Nunca foi. Mas talvez, agora, estejamos fazendo as perguntas certas. E isso, por si só, já é um baita avanço.
